segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Gente da minha Terra 1


O Orador, o Empresário, o Hipnotizador e o Romântico

Hoje são 4, as figuras de Tomar do meu tempo. Sei pouco deles, apenas algumas histórias. Não tenho fotografias, nem documentos, só lembranças.
1º- O Orador - Chamava-se Manuel, por alcunha o “Jeitoso”. Tinha uma irmã, de seu nome Laurinda, “Jeitosa”, que levava o dia, com 2 latas ligadas por um cordel, penduradas ao pescoço. Batia nas latas com dois paus, não falava, mas toda a gente a conhecia. O irmão, não gostava da alcunha, ficava zangado, quando o tratavam por “Jeitoso”, bebia um bocado e, fazia discursos, que começavam invariavelmente assim: “Quem manda é Deus e Nossa Senhora. E em Tomar, quem manda, é o  Senhor Capitão Oliveira”. Depois, o discurso continuava, longo, ilógico, com algumas verdades pelo meio.
2º- O Empresário - Não sei o nome, mas a alcunha era “Troca a Nota”. Também bebia o seu copinho, mas parvo não era.
Um dia, alguém lhe propôs, fazer uns buracos no Mouchão, para espetar os paus que, iriam servir de base, às ornamentações, de uma das muitas festas, que se faziam em Tomar. Viu o trabalho, acertou o preço de cada buraco, (1$00 cada) e aceitou. Abriu 3 ou 4 buracos e, viu o irmão. Sem perder tempo com explicações, perguntou: “Queres ganhar umas coroas?” O irmão aceitou, ele disse-lhe qual o serviço e, que ganharia 50 centavos por cada buraco. Seguidamente, sentou-se na explanada da “Primorosa”, bebendo o seu copo e vigiando, o seu operário. Entretanto, passa a pessoa com quem ele tinha contratado o serviço que, lhe pergunta: “Então o trabalho?” A resposta, veio pronta e elucidativa: “Não se preocupe. Tenho pessoal a trabalhar por minha conta”. Enquanto respondia, apontava o irmão que continuava a fazer os buracos. E era parvo?
3º- O Hipnotizador - Também não lhe sei o nome. Era conhecido por “Dona Inês”. Porquê? Também não sei. Bebia como uma esponja. Acho que era o seu estado normal. À tardinha, ia à “Casa dos Pobres” buscar sopa, com uma panela. A essa hora, já as pernas não o ajudavam muito. Caía, largava a panela que, rolava rua abaixo, tentava levantar-se, caía de novo e, então, começava o monólogo, sempre igual, tentando convencer a panela, a ir ter com ele. Ela não ia, ele ralhava com a panela e, a cena durava até passar uma alma caridosa, que o levantava, apanhava a panela e, às vezes, o guiava, até à “Casa dos Pobres”.
4º- O Romântico - Chamava-se Martinho, era de Alcobaça, vivia na “Casa dos Pobres”, fazia anos no dia de São Martinho. Alto, magro, vestido de escuro, amparado a uma espécie de cajado, entrava na minha rua, a cantar: “Nesta rua vou entrandó, pra falar ó mê amori...”
Parava e, dizia: “Oh Martinho, põe-te a pau. Tás grosso, ó quê?”
Andava mais uns passos e, em frente de janela onde houvesse menina cantava: 
                           "Menina que estás à janela,
                             A comer teu pão com queijo
                             Faz dos braços uma arma
                             E atira-me lá um beijo”
Este Martinho, era o preferido do meu Pai, por ser de Alcobaça, como ele. Ao sábado, subia a escada do meu prédio e, eu era encarregada de lhe entregar, um pão com carne, um copo de vinho e um cigarro. O meu discurso era sempre o mesmo: “A mãe dá o pão, o pai dá o vinho, a menina o cigarrinho”. A menina era eu. Maldito cigarro! Já aos 3, 4 anos, fazias parte da minha vida.
No dia 11 de Novembro, dia de São Martinho, o meu pai, mandava-o entrar e dava-lhe almoço completo. Um dia, desapareceu. Disseram-nos que, estava em Alcobaça num Asilo.
Hoje, dediquei-me a estes 4 homens. Eram figuras de Tomar.
Diferentes, mas nunca maltratados por ninguém. Em Tomar, não se tratava mal ninguém. Brincava-se, com as manias de cada um, mas sempre com respeito, com amizade.
Ainda será assim? Não sei. Isto, passava-se, no tempo do “Nosso Capitão Oliveira”, como diria o Manel Jeitoso, e eu subscrevo.
Até um dia destes
Maria    



9 comentários:

Alfredo Caiano Silvestre disse...

Boa tarde, Maria.
Gostei. Gostei tanto que, parafraseio o poeta: "Venham mais cinco duma assentada qu'eu pago já!".

Maria disse...

Olá Alfredo:
Não sei ainda quando, nem quantos, nem quem, mas virão mais sim.
A pouco e pouco, voltarei a falar das gentes da minha terra, do meu tempo.
Beijinho, meu amigo
Maria

elvira carvalho disse...

Muito interessante amiga. Gente do povo mas que nos marcou em algum momento da nossa vida. Também lembro alguns que conheci em tempos.
Desculpe a ausência, mas tive um problema nos olhos e o médico não me queria no pc.
Um abraço

Maria disse...

Minha Querida Elvira:
Eu também tenho andado fugida. Nem disposição, nem inspiração.
Fico preocupada consigo. Os olhos são um bem precioso. Siga as ordens do médico.
Eu à noite, já fujo um pouco do PC porque fico com os olhos vermelhos e a arder.
Desejo que o problema já esteja resolvido.
Beijinhos grandes
Maria

Maria disse...

Amigos: Leiam a Travessa do Ferreira http://aminhatravessadoferreira.blogspot.pt/ "Cama, mesa e roupa gravada".
Vale a pena.
Obrigada.
Maria

Maria Eduardo disse...

Olá Maria,
Gostei muito destas suas lembranças de gente da sua terra. Mostrei ao meu marido, que se recorda também dessa gente da vossa terra. E em relação ao Sr.Jeitoso, lembra-se de lhe ter saído a sorte grande(?) e que teria comprado imensos relógios de pulso que ostentava em ambos os braços ao mesmo tempo. Falou também de uma outra figura muito castiça da vossa terra,o Sr. Néné Cebola, muito cortez e que tinha uma memória prodigiosa pois conhecia de cor os números de telefone da cidade e arredores e que fazia bonecas de pau que transportava debaixo do braço.
O Cap.Oliveira era amigo do meu Sogro.
Obrigada Maria e conte mais histórias de Gente da sua terra, pois é um prazer tê-la de volta.

P.S.Vou ver o post do nosso amigo Travessa do Ferreira, que não visito há algum tempo. Espero que ele já tenha recuperado completamente.
...À boleia, logo que possa veja o meu post "um passeio de inverno, numa tarde de Primavera, fala da sua terra e tem um vídeo dos seus patinhos e peixinhos, feito nesse mesmo dia.
Um beijinho,muita disposição e inspiração.
maria eduardo

Maria disse...

Querida Maria Eduardo:
Fiquei tão contente por mais alguém se lembrar destas figuras, que fazem parte da história de Tomar! Um dia destes, será a vez de Nené Cebola e da sua lista telefónica. O seu marido vai gostar.
O meu amigo voltou em grande! Cheio de força, garra e bom humor.
Vou visitá-la.
Beijinhos grandes
Maria

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Só hoje, vim ler com calma e apreciar bem. Muito interessante, esses personagens que povoaram o nosso passado. Lembro-me de alguns dos quais já falei em um crônica sobre Fortaleza, lá na Cadeirinha.
Gostei muito, e que venha logo, o "Gente da minha Terra 2".

Um beijo, mana portuguesa,
da Lúcia

Maria disse...

Lucinha querida:
Parece que a vontade de fazer alguma coisa, começa a voltar. Ainda não consigo fazer visitas aos blogs amigos, por falta de concentração na leitura. Penso que ela voltará.
Desculpa, maninha brasileira. Prometo voltar breve.
Beijinho
Maria