sábado, 10 de julho de 2010

Basílica da Estrela, Zimbório e... Rock’n’roll.


Em Julho de 1956 eu estava, como sempre, em Lisboa. À tristeza de saber que não voltaria mais a Tomar, contrapunha-se o prazer de nesse ano ter cá o meu irmão. Pela mão dele conheci a Lisboa dos Monumentos, dos Miradouros, dos Bairros Populares, dos jardins.
Uma manhã fomos à Basílica da Estrela. Passámos pelo bonito jardim, atravessámos, e no adro da Igreja estava um grupo de miúdos de alpergatas ( nesse tempo não havia ténis Nike), calças americanas (também não havia jeans Levis), um rádio de pilhas de onde saía o barulho de uma música estranha e um senhor aos gritos. Os rapazinhos torciam-se, atiravam-se ao chão, davam gritos, como se estivessem a ter algum ataque estranho. A provinciana pata brava, que vivia em mim, ficou pasmada com aquilo. Logo o mano mais velho e citadino, se apressou a explicar que era um estilo de música e dança vindas da América. Fiquei mais calma e elucidada, embora um pouco espantada. É que em Tomar tirando os fados, a música popular, os tangos e as valsas, aquela música ainda não era conhecida.
Entrámos na Basílica e fiquei deslumbrada. Já por fora a achara linda, equilibrada, com uma torre de cada lado e aquela cúpula enorme lá em cima. Dentro rendi-me à beleza dela. Foi-me explicado que D. Maria I, a mandara erigir como promessa pelo nascimento de um filho. Os arquitectos e pintores, alguns tinham trabalhado em Mafra. A harmonia e delicadeza das colunas é maravilhosa. A primeira pedra foi lançada em 1776 e a Basílica foi inaugurada em 1789. É de estilo Neoclássico, com três naves. Na do centro destaca-se o túmulo da sua Fundadora. Morta no Brasil, foi o seu corpo trazido para Portugal e ali repousa.
A parte mais aventurosa da visita foi a subida ao Zimbório, que pouco depois foi encerrado ao público. Subimos a escada e no alto eu tive Lisboa aos pés. E Lisboa é tão linda! Os telhados, as trapeiras com sardinheiras, as torres de outras Igrejas, o verde dos jardins, tudo me parecia novo e diferente. O céu azul estava tão perto, que por instantes, julguei lá chegar. O Tejo brilhava ao fundo, sulcado de Cacilheiros e outros barcos, os sons chegavam lá acima esbatidos. Com os olhos cheios de luz, desta luz de Lisboa que não é igual a mais nenhuma, desci com pena.
Foi assim, meu irmão, pela tua mão, pela tua voz, com o teu carinho, que passei amar Lisboa de outra maneira mais profunda, mais íntima.
Eu disse que este mês só falo de Lisboa. Um dia destes iremos à Sé, à Igrejinha de Santo António, quem sabe mais onde. Marcamos encontro aqui,
Até um dia destes.

25 comentários:

Osvaldo disse...

Maria;

E cá estaremos, na primeira fila, para seguirmos esse roteiro que temos certeza, será maravilhosa, da nossa, tão nossa e só nossa Lisboa, eterna menina e moça, namorada de todos os portugueses e não só.
Gostei imenso da visita guiada que tu aqui nos fizeste da Basilica da Estrela, que confesso, envergonhado, que não conheço!...
Mas do pouco que conheço. Lisboa é das cidades mais belas que visitei e já perdi a conta de em quantas eu já passei.

bjs, Maria e um abraço aos homens.

da Anita e Osvaldo

Maria disse...

Osvaldo
Lisboa é linda. Peço perdão da explicação tão curta e tão pessoal da Basílica. Foi assim que a vi, com 11 anos e ainda hoje vejo. Amo-a como amo Tomar. Ontem fui aos fados. Para mim Lisboa é isto. Cheia de contradições, cheia de beleza, mesmo que esteja mudada, mesmo que o tempo passe, será sempre a Lisboa que amei e amo.
Abraço dos homens e beijinhos para ti e Anita.
Maria

Andre Moa disse...

Tu, cara Maria, subiste ao zimbório da basílica da estrela pela mão do teu irmão e ali sentiste Lisboa aos pés. Eu nunca lá tinha subido. Hoje satisfiz, pela tua bela descrição, esse velho sonho. E como Lisboa e o Tejo e as trapeiras e os telhados são belos vistos pelo teu olhar minucioso, atento e extasiado! Tanto que a mim me extasiou, estou certo, muito mais do que se lá tivesse subido e, esfalfado, já nem forças tivesse para olhar contemplativamente tão deslumbrnte cenário, que tão bem pintas, retratas e nos ofereces.
Beijinhos de toda a família, para a tua família toda.
André Moa

André Moa

Maria disse...

André
Creio que mesmo alguns Lisbetas não tenham visto a maravilha que vi. Como disse, o Zimbório fechou pouco tempo depois. A escada era enorme e para além disso, havia uma certa dificuldade em entrar. Casalinhos tinham que fazer prova de que estavam mesmo casados, de contrário ficavam na rua. Depois há esta mania bem portuguesa de não conhecer a terra onde vive. Vão adiando.
Hoje está fechado e tenho pena. Gostava de lá voltar, ver com os olhos de hoje, aquilo que ficou nos olhos da menina curiosa que fui. Sobretudo, gostava que o Vasco, o meu Corvo Lisboeta visse.
Abraços e beijinhos de nós para vós.
Não me faças tantos elogios que me torno convencida. Obrigada meu querido amigo.
Maria
N

Estrela d'Alva disse...

Maria,

Espero que Lisboa continue sempre com os seus típicos bairros onde ainda se convive e se canta o Fado, com a sua cor e luz que tu bem referiste, mas principalmente com o seu "quê" de cidade encantada que fascina qualquer um!
É o meu ponto de vista... é a minha opinião

Beijinhos da tua pequenina!

Maria disse...

Pequenina
Lisboa já não é a mesma que a Maria menina vio, com olhos de menina. Está diferente. Ainda é bela, ( os monumentos continuam, o Tejo é igual, há flores nas janelas), mas nada se conserva, nada se arranja. Mesmo assim continua linda, a bela Princesa do Tejo. Um dia gostava de te mostrar algumas coisas. Sei que irias gostar muito, minha Princesa tão diferente dos jovens de agora.
Beijinhos, querida Pequenina e obrigada pelo teu carinho
Maria

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariamiga

Vivi desde 1975 a 2007 na Lapa, encostadinha à Estrela. Ou seja, 32 anos bem puxados. Por milhentas passei pela basílica, umas entrei por mor de funerais, umas por curiosidade, por muitas e muitas vezes fui com os meus netos ao Jardim, que, digo-o, a dada altura se tornou muito perigoso para os miúdos. Havia por lá uns quantos pedófilos...

Gosto da Estrela, como gosto do convento de Mafra, mas, q.b. Ainda que tenham sido construídos para comemorar o nascimento de um príncipe, acho-os pesados, demasiado neoclássicos, com laivos de barroco sobrevivente.

Gostar, gostar mesmo, já nem sei do que. Lisboa, a noiva do Tejo e minha cidade, o Tejo noivo de Lisboa estão tão prostituídos que... Sei que me entendes

Homabs & qjs para tu

Kim disse...

E fazes muito bem em falar de Lisboa. Da que conhecemos e da que não.
Nós temos a sorte de ter uma cidade sobre a qual se podem escrever palavras de amor, de saudade, de nostalgia, de cor. E isso ninguém nos tira.
É o regresso ao passado da Petite Marie.
Beijinho

JE VOIS LA VIE EN VERT disse...

Querida Maria,

Gosto muito de Lisboa e particularmente durante o fim de semana. Durante a seman, tem movimento a mais... Tenho pena do meu Leo ser tão caseiro e não me levar mais vezes a ver a cidade.
Agradeço que falas mais desta linda cidade e das igrejas e igrejinhas onde, juntamente com o meu coro, tive a sorte de cantar na altura do nosso Ciclo de Música Sacra. É muito agradável cantar nestes lugares antigos e lindos. Aproveito sempre para uma visitinha, tiro umas fotos que publico no blog do coro. Algumas igrejas têm sacristias muito bonitas ! (Muitas vezes é aí que nos "fardamos"). O que é triste é que nos fins de semana ou à noite, o público é escasso, apesar dos concertos serem de entrada livre porque, infelizmente, as igrejas são "abandonadas" pelos habitantes de Lisboa.
Também fizemos um concerto nesta Basílica e cantamos num casamento no ano passado. Tenho muito carinho para as igrejas de Lisboa porque foi sempre um prazer cantar nelas. Ainda por cima,, dizem que cantar é rezar 2 vezes, assim "faço o meu trabalho de casa"...Eu rezo muito pouco mas canto a toda a hora !

Beijinhos
Verdinha

Corvo disse...

Pois foste uma priveligiada em teres como guia um grande (talvez o maior) olisipógrafo destes tempos, pelo menos.
Também tive a sorte de o ter tido desde a minha infância até aos dias de hoje como guia e professor de assuntos olisiponenses.
Acho que deves combinar e continuar a ver Lisboa com olhos de ver. Lisboa merece!
Beijo para ti, e aproveito para dar outro à Verdinha, à Estrela de alva, e um abraço aos amigos Osvaldo, Antunes Ferreira, André Moa e Kim.

Maria disse...

Henriquamigo
Esta Lisboa que eu amo, vive na minha memória. Quando conheci o jardim da Estrela, ele era o jardim dos namorados, com cantinhos românticos, patos no lago, pontes e crianças a brincar.
Hoje os jardins de Lisboa, e não só, são ocupados por drogados, marginais e pedófilos. É pena. Lisboa mudou e não para melhor. Na sexta-feira à noite estive na Santa Casa numa reunião agadável, com fados e tudo. Saimos de lá às 2 da madrugada e confesso que tive medo. Noutros tempos, andava-se em Lisboa à noite, com a segurança que agora nem de dia existe. Por isso vou pouco lá. Por isso só falo da outra Lisboa, a Lisboa de outras eras, com outro ambiente, outra gente, até outros cheiros. Essa continua a ser a "minha" Lisboa, como Tomar continua a ser igual ao que era, como a Ria de Aveiro ainda tem moliceiros. A minha cabeça só sabe ver o passado, tu sabes.
Lembro o que quero, procuro esquecer o que me desagrada.
Abraços dos homens, beijinhos para a Raquel e queijinhos para tu
Maria

Maria disse...

Kim
A Saudade, a Nostalgia e o Fado, só poderiam nascer em Lisboa. Foi isso que me levou a falar dela.
Que me perdoem os que a conhecem Lisboa melhor do que eu. É a Lisboa que a Petite Marie conheceu, com olhos de menina e ternura de criança. Amo-a, como se cá tivesse nascido.
Acho que foi nessa altura, que fiz um acordo com o meu irmão: Eu dava-lhe um pouquinho de Tomar, ele dava-me um pedacinho de Lisboa. Tem sido sempre assim. A verdade é que de uma e outra ele sabe muito mais do que eu. Ele é o Mestre, eu continuo a ser a aluna atenta, que faz por aprender o que ele ensina.
Pela mão dele vi Tomar, Lisboa, Paris, Florença, Roma, Pádua. Se não aprendi mais, a culpa não é dele, é só minha.
Beijinhos meu amigo.
Petite Marie

Maria disse...

Querida Verdinha
A Lisboa das Igrejas, tu conheces bem. Falarei delas, mas também de outras lembranças.
Dantes adorava Lisboa aos fins de semana de manhã. Hoje tenho um pouco de medo.
Gostava de ter uma gravação dos pregões de Lisboa para te mostrar. Desde o dia do almoço que ando com essa ideia.
Beijinhos, minha Belga com alma portuguesa.
Maria

mariabesuga disse...

Lisboa é essa luz toda sim, Maria e tu retrata-la muito bem na moldura das palavras com que a partilhas...

Por mim, se é maré de falar de Lisboa, vou estar atenta.

Aliás, vou tentar andar mais por aqui...

Deixo-te o meu abraço.
Maria

Maria disse...

Corvo
Sou uma sortuda em certas coisas.
Tive dois grandes mestres: O meu Pai e o meu Irmão. Se não aprendi mais foi porque sou burra. Aproveita tudo o que o Iº te ensinou e o 2ª te ensina. Tens muito que aprender e cabeça para isso.
Já agora: também sou sortuda noutras coisas. Tenho um bom marido e filhos e netos porreiros.
Beijinhos
Mãe

Maria disse...

Querida Girassol
Bem aparecida amiga! Valeu a pena falar de Lisboa para saber de Ti.
Beijinhos
Maria

JE VOIS LA VIE EN VERT disse...

Querida Maria,

Gostei imenso de ser chamada "tua Belga com alma portuguesa".
OBRIGADA !
Fico à espera de ouvir os pregões de Lisboa !

Posso aproveitar para deixar um beijinho a Maria Besuga ? Já a vi noutros blogs amigos. Que bom ter regressado !

E ao Corvo, vou responder directamente para "a casa" dele.

Beijinhos
Verdinha

Anónimo disse...

Seve disse...

Se não sabiam ficam a saber que:
-Esta D. Maria I, que mandou erigir este monumento como promessa pelo nascimento de um filho, tinha uma "tara": é que tinha a mania que estava morta (já há muito tempo) e que era ôca por dentro, absolutamente ôca.

Maria disse...

Seve
Dizer que a D. Maria tinha tara, é delicado. A mulher era completamente louca, como quase todos os Braganças. Embarcou amarrada para o Brasil, porque não queria ir. Sei que sou suspeita porque sou alérgica à monarquia. Dos reis que tivemos, poucos me agradam. Eram todos ôcos, burros e cheios de taras e manias.
Obrigada pela achega.
Maria

Laura disse...

Ah, tenho de reler a nossa História de novo, mas deixo isso para os dias de Inverno na lareira da minha casinha nas montanhas...que ainda há-de vir..

Amei a História de Portugal amei e continuo a amar mas a maioria dos escritos é deturpada senão! lá iam as cabeças dos Historiadores...
Lisboa foi minha terra durante os meus primeiros 18 meses e 4 anos..na Pontinha pertinho de Carnide e ainda lembro que ia com a mãe ver os cisnes ou patos num lago...íamos a pé.
Beijinhos minha querida..laura

Maria disse...

Minha Flor de linho
Estás melhor?
Arriba nina, que isto sem ti perde a graça.
Beijinhos
Maria

Anónimo disse...

Que saudades dessa Lisboa que eu também tanto adoro! Enchem-me de emoção as suas palavras. Bem haja pelas coisas lindas que escreve e que sempre nos tocam a alma. M.José

JE VOIS LA VIE EN VERT disse...

Amiga,
Não te esqueças de ir ler os teus emails, tenho uma proposta pequena para te fazer. Gostava que dissesses que sim...
Beijinhos
Verdinha

Maria disse...

M.José
Hoje fujo de Lisboa. Cada vez que lá vou, venho mais triste pelo estado em que está. Continuo a amá-la muito e faz-me doer, ver o mal que lhe fazem todos os dias.
Obrigada
Maria

Maria disse...

Querida Verdinha
Queria fazer-te a vontade, mas não dá. Enjôo, tenho medo.
De qualquer forma obrigada e bom passeio.
Abraço grande
Maria