sexta-feira, 25 de março de 2011

Carta a minha Mãe


Minha querida Mãezinha:

Era assim que começavam todas as cartas que te escrevi.
Hoje não posso ir ao cemitério como é costume. Não vou limpar a tua casa pequenina, não vou embalar a tua urna contra o peito, não vou deixá-la cheia de flores, como nos outros anos. Estou doente, Mãe. Por isso resolvi escrever-te.
Há trinta e nove anos que partiste. Trinta e nove anos de saudade, de mágoa, de factos que aconteceram e, tu não viste.
Deixaste três netos, nasceram mais três. Os três que te conheceram, lembram-te com saudade. O meu Vasco sabe de ti tudo o que eu e o meu Pai lhe contámos. Para os meus netos és a “Mãe da Avó” que já partiu há muito.
Estou a ouvir Chopin, o teu Chopin. Depois, vou ler um poema de Florbela, outro do Pedro Homem de Mello, um do António Nobre. Os teus poetas, Mãe. Vou encher de flores o teu retrato, vou lembrar os dias felizes que vivemos juntas.
Ouvindo Chopin, lembro-me de nós as duas. Tu sentada na cadeira, eu no chão, com a cabeça nos teus joelhos, sentindo as tuas mãos no meu cabelo numa carícia terna.
Os manos já me telefonaram. Já trocamos o beijo da saudade. O João foi comprar as flores. Tem tomado bem conta de mim, como lhe pediste.
Beijos e saudades de todos.
Um beijo e a saudade imensa da tua
Filha

Até um dia destes.

20 comentários:

Osvaldo disse...

Maria;

Caramba... é tão belo e comovente o que escreveste à tua mãe!... E olha que ela leu e guardou como guardadas estão todas as tuas lembranças.
Maria, e tu comoveste-me como covidos ficarão todos os que por aqui passarem e escutarem Chopin.

Beijinhos e abraços para o João e Vasco.

da Anita e Osvaldo

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariamiga

Este é mesmo um dos TEUS textos: sentido, saudoso, dolente, lindo. Que mais te posso dizer?

Posso. Cuida-te. O Santo&artista João trata de ti, sei-o bem. Os teus acompanham-te, estou certo. O Vascorvo, sem desfazer, é um tipo bué da fixe.

Tudo visto e anotado, tu és a principal culpada: põe-te em pé! É uma ORDEM!!!

3abs & qjs para tu

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

ADENDA

Como os malandros não aparecem lá pelas minhas bandas, e abusando embora deste espaço, aqui vai:

Osvaldo e Kim:

Porra, voltem, que estão perdoados...

Ciao

Ritinha disse...

Olá Maria,
que lindas palavras que escreveu à sua mãe. Muito comoventes.

Beijinhos e as melhoras
Rita

Kim disse...

Petite Marie!
Como és tão grande na paixão que te enleva!
Como és tão sequiosa desse olhar longinquo!
Como és tão frágil na saudade!
Beijinho

Maria disse...

Osvaldo amigo
Mãe há só uma, diz o povo sabedor.
Os anos passam mas, cada vez sinto mais a falta dela. Frágil por fora, por dentro era forte. Nervosa por natureza era calma quando era necessário.
Deixou-nos marcados a fogo, sem possibilidade de esquecer.
Obrigada e beijinhos para a Anita e para ti
Maria

Maria disse...

Henriquamigo
Tens razão. Esta é a minha praia. Saudades, recordacções, inconformismo pelas diversas perdas que me marcaram. Esta foi só a primeira e das mais dolorosas.
Acho que não consigo fazer o luto.
Perco sempre um pouco de mim, quando perco alguém que amo.
Penso que a crise está a passar mas, fiquei muito fraca.
O santinho não me deixa fazer nada.
Abs dos homes, beijinho para a Raquel e queijinhos para tu.
Maria

Maria disse...

Ritinha
Uma mãe como a minha merece tudo.
Ela sofreu, foi uma lutadora (para casar com o meu pai teve que enfrentar a família toda), era uma leoa quando lhe tocavam nos filhos.
Perdê-la foi (é) muito duro.
Que tenhas a tua muito tempo contigo, minha linda.
Beijinho
Maria

Maria disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria disse...

Amigo Kim
Não sou grande. Sou tão "petite" que me fazem muita falta os que amo.
Preciso de sentir a ternura dos meus para viver. Quando algum parte, um pedaço de mim morre.
Perder uma mãe é doloroso, tu sabes.
Beijinho
Maria

Je Vois la Vie en Vert disse...

Querida Maria,
Como eu entendo tão bem o que sentes em relação à saudade. Como escreveste com tão belas palavras este sentimento de amor que tens pela tua mãe !
Mas eu não reajo como tu em relação aos restos mortais (da matéria) como tu, daí, talvez, a conseguir sofrer menos do que tu. Tenho uma fotografia dela colocada bem à vista com uma vela de Fátima e uma flor branca em frente e cada vez que passo ao pé dela, mando-lhe um beijo. Sinto à minha mãe ao pé de mim, ela está sempre no meu pensamento. Recuperei um pequeno coração de ouro que lhe tinha oferecido e trago-o no meu pescoço.
Na penultima vez que vi a minha mãe, ela disse-me "estou triste porque talvez é a última vez que te vejo" e eu respondi-lhe "Não estejas porque, do Além, vais ter sempre possibilidade de me ver, eu é que não, eu é que devia ficar triste..."
Não penses que ela não conhece todos os netos, não penses que ela não te vê sofrer, não penses que ela gostava de te ver alegre !
Não uso o luto, uso agora o branco porque sei que a minha mãe está na Luz e é ela, que gosta do branco, que me está a sussurrar Estejas feliz, continue alegre porque é assim que também fico.
Muitos beijinhos amigos
Verdinha

Alva disse...

Maria,

Como fiquei demasiado emocionada para conseguir fazer um comentário "de jeito" sobre a lindíssima carta que escreveste à tua mãe, decidi partilhar contigo um poema.
Um poema meu, que acho que se adapta bem a esta carta...

Intitula-se "Tela"...

Permanecia atenta, curiosa
Nos teus braços, já os sabia.
Que gostaria de voltar um dia
Na Inocência formosa.

De esverdeados olhos, maravilhosa.
Cuja beleza escondia
Se puder, acrescentaria:
Não conheço mais airosa!

Desfolho-me para encontrar,
As palavras mais belas
Para humildemente a desenhar...

Nem flores, campos ou brisa do mar,
Nem no firmamento as estrelas,
A minha mãe conseguem pintar!

Muitos beijinhos para ti,
Da tua Pequenina

Maria disse...

Querida Verdinha
Como eu gostava de ser como tu!
Sabes? Eu falo com ela todos os dias, conto-lhe o que se passa, sonho muitas vezes com ela.
Faz-me companhia a toda a hora. Tenho o retrato dela e do meu pai em frente da minha cama. Assim que acordo, são eles a quem primeiro dou os bons-dias. Quanto às idas ao cemitério, ela ligava muito a essas coisas e,eu faço-o por ela. Quando lá chego, apodera-se de mim uma grande tristeza porque, afinal, são o que resta de material da minha mãe.
O meu pai quiz ser cremado. Eu também quero.
Olha querida, cada uma à sua maneira, estamos ligadas a elas para sempre.
Muitos beijinhos e obrigada pela tua ternura
Maria

Maria disse...

Querida Pequenina
O poema é muito lindo e verdadeiro.
Não o conhecia. Obrigada por esta partilha.
Tu sabes sempre encontrar o caminho do meu coração.
Beijinhos minha Pequenina e, o obrigado da tua
Maria

Laura disse...

Maria, as nossas mães ou pais que já partiram não se desligam fácilmente dos filhos amados!
Eles sempre que podem estão por perto a assistir à nossa felicidade ou infelicidade, e claro, alegram-se connosco e entristecem também.
Haja a esperança daquele amanhã que um dia chegará, e todos juntos de novo daremos largas à alegria que nos irá na alma.
Um beijinho.

laura

Maria disse...

Laurinha querida
Nós nunca nos separamos dos que amamos. Tudo nos liga a eles. O sangue, os génes, as recordacções, o amor. Amo a minha tanto como quando a perdi. Mesmo quando há diferenças, o amor está lá para as superar.
Obrigada e beijinhos
Maria

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Maria,
Encontrei você na Travessa do Ferreira e lendo um comentários seu, na última postagem dele, não resistí e vim "vê-la" mais de "perto": cá estou ate seguir...
Seu estilo me atraiu, somos um tanto semelhantes...Esta carta à sua mãe me comoveu profundamente.

Visite-me no meu blog > Da Cadeirinha de Arruar...o "objeto" de meu último post é minha mãe, que também já partiu, mas a lembrança é perene..

Abraço irmão, de uma brasileira com
raizes lusitanas...
Beijos
Lúcia (também Maria!),

Maga e Joao disse...

Lucia
Obrigada pelas suas simpáticas palavras. Logo que possa vou ao seu.
A Travessa leva-nos até ao Brasil.
Um abraço
Maria

Corvo disse...

Minha querida mãezinha,

Que Deus permita que te encontres bem ao lêr este comentário.
Peço-te desculpa por só agora o fazer. Só há dias aqui vim e vi que já tinhas mais dois posts.
Como sempre, uma linda carta cheia de sentimento, vinda de uma pessoa que diz que os não sabe mostrar.
Mas, também não posso falar disso pois, como diz o velho ditado, "diz o roto ao nú: por que não te vestes tu?".

Beijinho.

Maria disse...

Corvo, meu querido filho
Obrigada pelo começo do comentário.
Foi a Iª vez que me escreveram isto.
Comoveu-me, sabes?
Beijos da mãe sempre amiga ( era o fim da resposta dela às minhas cartas)
Mâe