quarta-feira, 16 de março de 2011

Torga de novo

Torga de novo

Farta de escrever disparates, sem inspiração, lembrei-me de um poema de Torga. Ficam os meus amigos mais bem servidos e, dou a conhecer mais uma poesia linda, triste e, atrevo-me a dizer actual.
Em 1515 era governador da Índia D. Afonso de Albuquerque. Depois de muito lutar, ferido e doente, ainda quis deixar uma carta a El-Rei D. Manuel uma carta.
A carta é esta:
“"Senhor. - Eu nam escrevo a vos alteza per minha mão, porque, quando esta faço, tenho muito grande saluço, que he sinal de morrer: eu, senhor, deixo quá ese filho per minha memória, a que deixo toda minha fazemda, que he assaz de pouca, mas deixo lhe a obrigaçam de todos meus seruiços, que he mui grande: as cousas da india ellas falarám por mim e por elle: deixo a india com as principaes cabeças tomadas em voso poder, sem nela ficar outra pendença senam cerrar se e mui bem a porta do estreito; isto he o que me vosa alteza encomendou: eu, senhor, vos dey sempre por comselho, pera segurar de lá india, irdes vos tirando de despesas: peçoa vos alteza por mercee que se lembre de tudo isto, e que me faça meu filho grande, e lhe dè toda satisfaçam de meu seruiço: todas minhas confianças pus nas mãs de vos alteza e da senhora Rainha, a elles m emcomemdo, que façam minhas cousas grandes, pois acabo em cousas de voso seruiço, e por elles vollo tenho merecido; e as minhas tenças, as quaes comprey pela maior parte, como vossa alteza sabe, beijar lh ey as mãos pollas em meu filho: escrita no mar a 6 dias de dezembro de 1515. Afomso dalboquerque" carta de Afonso de Albuqerque ao rei D. Manuel I[“.
Inspirado nela, escreveu Miguel Torga um dos seus melhores poemas.

Afonso de Albuquerque de Miguel Torga

“Quando esta escrevo a Vossa Alteza
Estou com um soluço que é sinal de morte.
Morro à vista de Goa, a fortaleza
Que deixo à índia a defender-lhe a sorte.

Morro de mal com todos que servi,
Porque eu servi o rei e o povo todo.
Morro quase sem mancha, que não vi
Alma sem mancha à tona deste lodo.
De Oeste a Leste a índia fica vossa;
De Oeste a Leste o vento da traição
Sopra com força para que não possa
O rei de Portugal tê-la na mão.

Em Deus e em mim o império tem raízes
Que nem um furacão pode arrancar...
Em Deus e em mim, que temos cicatrizes
Da mesma lança que nos fez lutar.

Em mais alguém, Senhor, em mais ninguém
O meu sonho cresceu e avassalou
A semente daninha que de além
A tua mão, Senhor, lhe semeou.

Por isso a índia há de acabar em fumo
Nesses doiros paços de Lisboa;
Por isso a pátria há de perder o rumo
Das muralhas de Goa.

Por isso o Nilo há de correr no Egito
E Meca há de guardar o muçulmano
Corpo dum moiro que gerou meu grito
De cristão lusitano.

Por isso melhor é que chegue a hora
E outra vida comece neste fim...
Do que fiz não cuido agora:
A índia inteira falará por mim.”

Leiam e pensem.
Até um dia destes
Maria

12 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariamiga

Extraordinária ideia esta que aqui plasmas. Juntar Afonso de Albuquerque e Miguel Torga é mais do que lindo: é lindíssimo.

Como sabes, a Goesa que me dá cabo da mona chama-se Raquel. Os pais e cinco irmãos estavam em... Vasco da Gama, onde o meu futuro sogro era director da Alfândega.

Começáramos o namoro a 22 de Agosto. A invasão da tropa indiana (ou a libertação, escolha-se) começou em 18/19 de Dezembro. Ela ficou naturalmente de rastos até conseguir saber que a família estava bem. Eu acompanhei-a, como é óbvio.

Toda esta lenga-lenga para te dizer que o teu texto me tocou profundamente. Os Goeses dizem que eu sou mais Goês do que eles. Dizem bem. Eles são excelentes; com uma excepção que logo me havia de calhar...

Adorei. E quero que não te ausentes durante tantos dias. Fazes (-me) falta.

3abs & qjs para tu

Osvaldo disse...

Maria;

Como o amigo Henrique, também eu fico "deveras orgulhoso" que tenhas juntado dois vultos enormes da nossa história separados por mais de quatrocentos anos que são Albuquerque e Torga!...
Ambos foram enormes e tu, Maria, és muito grande para te lembrares de verdadeiros descendentes da Alma Lusitana.
bjs.
Osvaldo

Laura disse...

Quão bela a poesia Lusitana
que honrou a Pátria amada
ao deixar em verso toda uma saga
dos nossos heróis pelo mundo fora
e é com eles que nos deliciamos
ao ler os seus feitos
de agora!

Um beijinho da laura

Kim disse...

Torga, a rua eterna paixão!
Hoje tens mais uma saudade para te alimentar a alma. Hoje, lá longe teu pai olha pela sua Petite Marie.
Beijinho

Green Knight disse...

Amiga Maria!O que escreves é alimento.
Ontem depois de escutar atentamente a escritora Lídia Jorge, no Programa da TV2, Camara Clara, mudei uma opiniâo que estava enraizada em mim.
Sempre coloquei o meu País acima de quase tudo.
Está aqui expresso e confirmado, o que ela disse:Os portugueses são o melhor que o país possui.
Só que andamos de mâo dadas com o nosso fado.
bjs
Jrom

Je Vois la Vie en Vert disse...

Farta de escrever disparates, sem inspiração"???
Os teus textos são sempre agradáveis a ler e oferece-nos agora mais um texto bem original. Bem, custou-me um pouco lê-lo mas é porque ainda não estou bem habituada ao novo acordo ortográfico... ;)
Minha querida, agradeço as tuas belas palavras que deixaste aquando do meu sofrimento que está a tornar-se saudade, palavra tão portuguesa, e teres estado a segurar a minha mão quando eu precisava de segurança.
Muitos Beijinhos
Verdinha

Maria disse...

Henriquamigo
Só hoje respondo, porque tenho estado de molho com uma valente crise de rins. De vez em quando prega-me a partida.
Deveria estar a caminho de Sevilha e, fiquei aqui a ver a banda passar. Só hoje abri o computador.
Obrigada pelo teu comentário, que não mereço. O mérito é de Afonso de Albuquerque e Torga. Limitei-me a juntá-los.
Calculo o que a Raquel sofreu.
Abs. dos homens e beinhos para ela e para ti
Maria

Maria disse...

Amigo Osvaldo
É pena que homens como Afonso de Albuquerque e Torga, tenham desaparecido e hoje, só haja pavões palavrosos, que nada fazem pelo nosso país e pelo nosso povo. Cada um pior que o outro.
Beijinhos pra a Anita e para ti.
Maria

Maria disse...

Kim amigo
Foi mesmo no dia do Pai que postei isto. Para mim, dia sem pai.
O meu filho mais velho nasceu neste dia. O meu Pai dizia que, "era a melhor prenda do dia do pai que tinha recebido".
Beijinho
Maria

Maria disse...

Jrom
Somos um povo estranho. Lá fora somos bons, cá dentro não valemos nada. É só conversa e nada de obras. Vivemos à sombra do passado glorioso que tivemos e acabou e, vivemos sem pensar no futuro.
As grandes cabeças emigram. Ficam os cabotinos que nem fazem nem deixam fazer.
Beijo
Maria

Maria disse...

Querida Laurinha
A poesia de Torga é linda mas, triste. O que fomos e o que somos.
Tenho estado doente. Outra vez os rins.
Só hoje arranjei coragem para abrir o PC.
Beijinhos Flor de Linho
Maria

Maria disse...

Verdinha querida
Compreendo-te tão bem! Faz hoje 39 anos que a minha Mãe partiu. A minha saudade é cada vez mais funda.
Senti a tua dor e compreedi-a bem.
Estou sempre aqui para ti.
Beijinhos
Maria