quarta-feira, 20 de abril de 2011

Torga, Galafura, um Duriense e eu



São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga
Uma tarde em Lamego, depois de me ouvir dizer que, no dia seguinte iria a Galafura, um cunhado de meu filho, homem do Douro até à medula, deu-me um conselho: “Quando lá chegar, antes de olhar a paisagem, procure uma pedra onde estão uns versos do Torga. Leia-os bem e, depois olhe. Verá a beleza da paisagem através dos olhos dele”.
Fiz exactamente o que ele me dissera. Meu Deus! A beleza que vi!
Sem querer gabar-me, André e Osvaldo, vi com os olhos que vocês o vêem, aquele Douro e, senti que podia ser ali a minha terra.
Cada vez que volto lá, é com os versos e os olhos de Torga que o vejo. Lindo, majestoso, duro, verde. E amo-o porque Torga me ensinou a amá-lo. E entendo o vosso amor por toda aquela beleza, regada a sangue, suor e lágrimas dos homens que a fizeram mais linda, do que a Natureza já a tinha feito.
Boa Páscoa para todos.
Até um dia destes.
Maria

12 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariazitamiga

Adoro o nosso Torga - que, passe o nacionalismo cabotino - merecia o Nobel, muito mais do que o Saramago. E que, apesar de ter sido proposto por várias vezes, não foi aceite. Infelizmente.

Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente e conversar com ele três tardes. E com a sua mulher Andrée Cabrée.

Este poema e este teu sentimento tão bem expresso são uma excelente demonstração do transmontano de cepa que ele era. E mais não digo, a não ser desejar uma boa Páscoa e juízo na moleirinha. Amen.

3abs & qjs para tu

Ritinha disse...

Boa Páscoa

Beijinhos!

Maria disse...

Henriquamigo
Torga é Torga, com ou sem Nobel.
O maior prémio que receberá, será o preito de todos nós, durienses ou não. Nem consigo compará-lo com o Saramago. Em nada se parecem.
Tenho todos os seus livros e, leio-os muitas vezes. Foi o meu irmão quem me deu o Iª livro dele: "Novos contos da Montanha", num Natal já longinquo. Li-o, reli-o e, fiquei encantada. Depois, todos os tostões que conseguia juntar, ia comprar mais um livro.
Quando foi inaugurada a rua de Lisboa que tem o seu nome, o mano foi um dos que falou, recebendo um beijinho e um forte abraço de Andrée. Uma mulher pequenina e valente,que dedicou toda a sua vida. E olha que devia ser dificil lidar com ele. O génio parece que não era fácil de lidar. O amor pode tudo. Agora estão os dois em Sâo Martinho de Anta, sob o negrilho com uma torga aos pés. Juntos, sempre.
Boa Páscoa para todos vós.
Abs dos 3, beijinhos à Raquel linda e um folar da Páscoa para ti
Maria

Maria disse...

Ritinha
Uma Boa Páscoa cheia de amêndoas, boas notas e tudo o que mereces.
Beijinho
Maria

Je Vois la Vie en Vert disse...

Ainda estou em dívida com ele porque ainda não o li...
O Osvaldo e a Ana devem gostar muito do poema São Leonardo, não tenho dúvida disso !
Feliz Páscoa, querida Maria, para ti e para todos os que te são queridos !
Beijinhos
Verdinha

Alva disse...

Maria,

Estou mais uma vez atrasada para comentar os teus posts e peço desculpa por isso...

Quanto ao Douro compreendo o teu (bom) gosto. É majestoso ao ponto de nos limitar-mos a apreciar sem nada comentar!
Falta-me conhecê-lo pelos olhos de Miguel Torga... um dia será.... =)

Uma Páscoa feliz para ti e para todos os que amas.
Muitos beijinhos,
Da tua Pequenina

Kim disse...

Petite Marie
Agor entendes melhor a paixão do Guimoa e do Osvaldo por estes socalcos que o sol abrasa e o Douro refresca.
Se a tua paixão por Torga já era imensa, ela aumentou agora com aqquilo que os teus olhas enxergam
Beijinho amiguita

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Conheci Torga em Contos da Montanha, quando organizei uma biblioteca pública escolar,há um bom tempo.Fiquei encantada.
Mariazinha, que privilégio este seu,em poder descrever instantes tão lindamente vividos.

Vim agradecer sua estada na cadeirinha e leio algo tão divino.
Pois tudo de que você "fala", é obra do nosso Criador...
Afetuoso abraço
Lúcia

Maria disse...

Verdinha querida
A minha paixão pelo Douro é antiga.
Data dos anos que vivi no Porto. Ao Domingo, os nossos passeios levavam-nos para o mimoso Minho e para o Douro grandioso, que me deixava sem fôlego.
Voltando a Torga, ele comenta que, o Minho é verde demais. Diz:"As árvores são verdes, os prados são verdes, o vinho é verde, o caldo é verde. Sinto-me vaca". Vês? sempre Torga a influenciar-me.
O Douro é outra coisa. É força, é grandeza de paisagem de homens que a tornaram mais produtiva e linda.
Os homens e mulheres do Douro são agrestes e duros, valentes e bons, sinceros e bem formados. Homens como Torga, André Moa e Osvaldo.
Como o pai da minha nora e o cunhado e tantos outros.
A mulher de Torga era belga como tu, veio para Portugal, por amor como tu, tornou-se portuguesa como tu. Tens de o ler. Como preito a ele e a essa mulher que só não foi a musa dele, porque o Douro e Portugal, já o eram.
Boa Páscoa para todos vós.
Um abraço grande, como gostas da
Maria

Maria disse...

Querida Pequenina
Lê Torga, sim!
Além de ficares a conhecer o Douro dele, vais ficar com outra visão de muitas coisas.
Começa pelos "Contos da Montanha" ou "Bichos". Vais ver que não paras mais. Fala de um tempo que não foi o teu mas, que te mostrará o que já fomos um dia.
Eu já li todos os livros dele, já reli e, nunca me canso. De cada vez encontro algo novo.
Boa Páscoa Pequenina, para ti e os teus.
Beijinhos grandes
Maria

Maria disse...

Kim
O Douro é meu velho e querido conhecido. É lindo. Conhecê-lo bem, só quem lá nasceu e comeu o pão molhado de lágrimas, como Torga, o Moa e o Osvaldo, o conhecem.
Eles sentem que cada sucalco, custou vidas, dores, servilismo aos senhores donos das vinhas e do vinho. Eles sentem até aos ossos, as penas que tudo aquilo custou a alguém próximo. Mesmo quando lá voltam, ainda sentem o mesmo: Foram os seus ascendentes que fizeram aquela terra abençoada. É isso que faz deles o que são e os prende para sempre aquele chão. Vão para onde vão, mesmo que não voltem mais, as raízes ficam lá.
Boa Páscoa para todos vós.
Beijo
Maria

Maria disse...

Lucinha querida:
Começaste bem com os Contos. Lê mais. Saberás muito da nossa terra.
Com Amado, Verissimo, Machado de Assis, Ligia Teles, aprendi muito sobre o Brasil e sua História.
Gosto muito da tua "Cadeirinha". Passo lá todos os dias.
Boa Páscoa para ti e os teus.
Beijo
Maria