quinta-feira, 16 de abril de 2009

Às vezes não sei se vale a pena


Sempre gostei de limpar a casa. Quando era pequena, contava minha mãe, guardava os meus pequenos utensílios, junto aos verdadeiros. Assim que via alguém agarrar na vassoura e na pá, fazia o mesmo. Imitava tudo quanto faziam e adorava limpar o pó.
Ainda hoje, com estas mãos doentes, que nem escrever à mão me deixam, continuo a gostar de limpar o pó. Tenho uma empregada que aspira, encera, lava vidros e paredes, passa a ferro, cose a roupa, mas há duas coisas de que não abro mão: limpar o pó e cozinhar. A parte de cozinhar, às vezes precisa de ajuda, para descascar, cortar, picar cebolas etc. Mas o pó, não. Aí, não quero ajudas. Não gosto que me mexam nos livros, nos bibelots, que me mudem a disposição das fotos, das caixas, das jarras. É uma autêntica paranóia. Chego ao fim, com os pulsos doridos, os dedos dormentes, mas feliz.
Às vezes penso se vale a pena. Daqui a dias, lá estou eu, com espanadores de vários feitios, panos com creme de limpeza, panos sem creme de limpeza, pincéis pequenos, para os objectos mais frágeis, pincéis grandes, para os móveis torneados, limpa metais, sei lá que mais. Depois, olho em volta, contente com a obra. Agrada-me ver o escuro dos móveis, brilhar, agrada-me ver os livros alinhados nas estantes, agrada-me olhar as fotos e quadros queridos, sem pó, nem marcas das moscas.
Trabalho prosaico? Não é. Enquanto o faço, a minha cabeça está livre para pensar. Consigo trabalhar com as mãos, deixando o pensamento voar para longe, ou perto, às vezes. Posso ir imaginando o fim do livro que estou a ler. Posso pensar em qualquer coisa, para aqui escrever. Posso sonhar que um dia, o mundo será belo e haverá Paz.
Não me digam que limpar o pó é chato. Como vêm, para mim, é um trabalho divertido e produtivo. Este post chato de hoje, foi todo imaginado a limpar o pó.
Até um dia destes.

14 comentários:

Luís Ribeiro disse...

Tudo o que façamos que nos dê prazer e que gostamos, nem a pior dor do mundo é capaz de nos incapacitar.
Ao fazer as coisas por gosto, correm às mil maravilhas.

Vale sempre a pena fazer as coisas que gostamos

Beijos

girassol disse...

Ai Maria que desgraça de mulher! Então limpar o pó?!?!?!... Safa! Pró que te havia de dar!... Gosto de fazer muita coisa da casa mas limpar o pó é das que menos gosto. Quando a minha filha era pequenina e começou a querer fazer essas coisas de mulherzinha... limpava o pó. Ela adorava. Eu tinha na altura uma mobília de quarto que era preta e a menina muito pequena a limpar o pó é claro que ficavam umas passagens sem passagem do pano. Como só se viam pelos crescidos ela ficava muito contente e eu sem ela ver ia fazer melhor. Mas ela ficava tão contente por eu lhe dizer que estava muito bem. Acho que hoje é uma das coisas que ela também não gosta. Isso e tirar a loiça da máquina que é coisa que a mim também não me agrada. Deve ser por isso que para castigo nesta casa não consigo ter espaço para máquina que se está a estragar na casa de Lisboa. Mas enfim... As nossas casinhas são o melhor sítio para se estar e eu gosto de mantê-la limpinha e arrumada porque gosto de me sentir bem dentro dela. É o meu refúgio. Não gosto de fugir para fora mas para dentro de casa para me sentir bem.

Beijinhos para ti

Já convenceste o teu motorista?!?!?!...

Maria disse...

Luís:
É verdade. Desde que se ponha prazer, alegria e amor, as coisas correm bem.
Toda a vida fui dona de casa e, por acaso, só há duas coisas que não gosto: passar a ferro e coser. Sei, mas não gosto e, hoje não posso, por causa das artroses.
Do resto gosto.
Mas gosto ainda mais de ler e escrever. Estive anos sem fim, sem escrever uma linha. Agora, que não consigo escrever à mão e descobri o computador, farto-me de escrever disparates o dia inteiro. E o mais engraçado, é que há quem tenha paciência para me ler.
Vocês são uns amores com esta Maria, obrigada.
Beijos

Maria disse...

Girassol:
Cada maluco com a sua mania. Adoro limpar o pó. Uma coisa que toda a gente detesta.
Sabes? Sou mesmo um animal doméstico. Sinto-me bem na minha casinha, onde tenho as minhas coisinhas: os meus livros, os discos, as lembranças, a infância dos filhos, o meu marido e o canito Nabão.
Vou ver se dou a volta ao motorista.
Além de tudo, Óbidos era a terra do meu avô e o meu pai passou lá uns anos, em pequeno. Acho que tratava por tu, as pedras do Castelo. Adorava Óbidos. Já muito velhinho, levei-o lá e, ele parecia ter andado para trás no tempo. Fartou-se de andar, subiu e desceu ruas, com uma alegria, que há muito não lhe via e, não voltei a ver. Tomar e Óbidos eram as suas terras, aquelas onde fora mais feliz.
Beijinhos e até amanhã.

*Lisa_B* disse...

Querida Maria,
que bom que tens alguma coisa que gostas de fazer tal como limpar o pó olha que sorte tem a tua empregada :-)

Eu também gosto de limpar o pó e ninguém mexe nas coisas que eu adoro tais como livros, fotografias, caixinhas , etc etc...bibelots não tenho nenhuns foram todos substituídos aos poucos pelos livros que me rodeiam, sim vivo rodeada de livros, discos antigos de vinil, CD'S, enfim...o meu pequeno mundo de coisas raras que me fazem bem.

O pó não faz tão bem aos pulmões no ano passado andei dias seguidos a limpar o pó da casa toda mas assim à maneira mesmo de ficar à prova de algodão estás a ver?

Então fiquei muito mal dos pulmões andava mais fraca talvez e fiquei com uma alergia daquelas fortes e eu que nunca tinha sido alérgica a nada nem suspeitava que fosse disso aquela tosse que me levava quase as costelas junto :-)

Bem minha querida Maria ainda vou colocar o post do livro da Ana hoje por isso vou ali ao post da cigarreira e despeço-me de ti que te adoro ler não és nada chata, lamento só que te fique a doer as mãos e pulsos a fazer algo que gostas tanto...mas ainda bem que fizeram computadores assim há muitas pessoas felizes e não são só os miúdos...mas todos nós...que usamos esta ferramenta tão útil e que nos arranca da solidão muitas vezes.
Beijinhos meus com carinho

Kim disse...

Petite Marie!
Tens ainda a vantagem de poder limpar o pó enquanto vais recordando a velha cigarreira, o Nabão, o Douro e o Torga.
É que cá o pessoal da nossa geração já tem muita coisa para recordar. E o pó não perdoa.
Beijinhos Marie

O Bicho disse...

Ah!!!!! Se fosse possível alargar um pouco o âmbito dessa tua louvável actividade, dava-me jeito passar um pano ou um espanador na minha caixa das ideias para ver se os pensamentos começam a fluir.
E já agora, aproveitando a embalagem, fazia muita falta uma boa limpeza nas bancadas da Assembleia da Republica e outra nas cadeiras do Palácio de S. Bento - talvez com um bom aspirador.

Maria disse...

Lisa:
Esta mania de limpar o pó, é velha.
Sempre me lembro de limpar o pó de tudo. Nas casas da minha avó e das minhas tias, os móveis eram daqueles de torcidos e embutidos, que faziam perder a paciência a toda a gente menos a mim. Nesse tempo, sem toalhas e espanadores "agarra o pó", sem "Pronto" ou óleo de Cedro, entrava em acção, o óleo de linhaça e a cera de abelha. A 2ª cheirava bem, o pior era o óleo. Mesmo assim eu gostava. Manias! Podia dar-me para pior.
Hoje estou toda partida. Este tempo dá-me cabo dos ossos.
Vou à cabeleireira, para ver se estou parada e, de caminho, fico com cara de gente.
Até logo e beijinhos

Maria disse...

Bicho, meu amigo:
Achas que se eu pudesse limpar as caixas das ideias, tinha a minha neste estado?
Há dias que só consigo fazer disparates, tal a confusão que me vai na cabeça. São teias de aranha, medos, revoltas, neura...
Na Assembleia? Aquilo já só lá vai, com lexivia, litros de Sonasol verde, e escovas, daquelas antigas, de cerdas duras. Destas seriam precisas bastantes, porque eram para esfregar as cabeçorras dos deputados. O meu medo, é que ía sair tanta sujeira, que Lisboa se tornaria um mar de lama fétida.
É melhor não nos metermos nisso.
Beijo

Maria disse...

Kim:
Deixei-te para o fim. Sabes? às vezes, quando limpo o pó dos livros, paro um bocadinho, abro um livro ao calhas, leio umas linhas e, depois fico a lembrar-me do resto do livro. Cada objecto me conta uma história ou me lembra alguém. Tu, com o teu olho clínico, descobriste muita coisa em mim. Poucas pessoas lêm nas entrelinhas do que escrevo, como tu.
A Petite Marie, é dizem, um pouco o conjunto de outras Marias. Acho que já conheces algumas.
É bom sentir-me entendida.
Ah! a cigarreira está guardada com os três cigarros, para um dia dar ao Vasco.
Beijo

Pico minha ilha disse...

Ai o pó, limpo fora de casa e em casa, mas também faço tudo o resto, nada de empregada aqui em casa, só a máquina da roupa e louça e bem bom.Beijinhos Maria bfs

Laura disse...

Bem que eu seria uma sortuda se fosses minha vizinha! Adoçava-te com treta e tu ias fazendo o que nem gosto de fazer, ou seja, faço por rotina, mas acredita maria que; se o pó não se notasse, eu bem dispensava os panitos as escovitas e o rais que leve os apetrechos da limpeza...

A Neide em pequenita, subia para um banco paralavar a louça, eu também gostava, mas depois de ter maquineta de lavar, não quis outra coisa. Mas, quando estou mal, mesmo mal por dentro e por fora, com problemas graves, sabes o que faço...mudo móveis, quando dá, faço esforço fisico a mais, e a minha cabeça é uma bola que rola sem parar...depois de horas de exercicio, fico melhor, gosto do trabalho que fiz e sai tudo mais limpinho...saem as angústias, os medos, e volto a ser a laura de sempre, mas para chegar a esse ponto, ainda tenho de falar com Deus, falar, conversar, e depois sim...entro nas calmarias...


Ahhh, vasco, nem querias mais nada...Eu já passei por duas guerras, mato, medo, catanas mais de longe, mas, estive propensa a tudo o que acontecia quando iamos nas caravanos da tropa para o Qitexe, Moxico, Carmona, onde fosse...E agora tu queres simplesmente com umas vassouradas, mandar o pessoal pró lixo? ah, fosse assim tão fácil meu filho...se fosse assim...
Estes pobres que lá trabalham, deveriam ser eliminados pura e simplesmente com sheltox e tava o trabalho feito... Aguarda que nem sempre é tudo mau.
Um beijinho aos dois. laura.

E sim maria, ouvi muito bem o saxafone, e eram verdadeiras as lágrimas que corriam sem parar, que bom que estava á frente e ninguém reparou nelas a não ser a querida Anita...Como Deus é Bom é Pai e nos ama tanto... Eu sei que se assim estous em ouvir é por mim, pelo meu passado de vidas e vidas que já vivi e não da melhor forma...Mas, ELE está lá para tudo..Um abraço enorme, adoro tuuuu tuzinha memso...laura.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Insolentíssima Senhora Dona Mariazita

Atão vomecê andou enganando-me? Sendo assim, teim de casar comigo. Côsas destas nã se fazeim. Passou um rori de tempo dizendo-me que nã sabia escreveri e, vai-se a vêri, sabe. Ranhosa!!!! Mintirosa!!!!

Até me está roubando clientela lá na Minha Travessa, pôçaras. Ê cá estou roído de invejas. Por isso le digo: nã teim nada caprenderi. Vá mandando textículos - nã senhora, nã são desses com s, são mesmo com x, porra!!!!

É por essas e por outras que anda limpando o pó. Bêfêto!!!!

Quêjinhos da Alame(r)da das Linhas de Torres, tá beim?

Maria disse...

Henrique; mê amigo:

Apesar dos nomis fêos que tu me chamas, gostê do tê comintário.
Ê nã quero tirar os fregueses a ningueim. Comeci a escrevinhar por brincadêra, aqui nos mês Alcatruzes e, pensava que ia acabari di a poucachinho. Afinal, já cá tou há mais dum ano.

Quanto a limpar o pó, inté gosto.
Já sou animal doméstico há 40 e tal anos e, inté gosto.
É um trabalho que me ocupa as mãos e me deixa a cabeça livre.
Por isso, mato dois coelhos de uma cajadada. Faço o trabalhinho de casa, enquanto vou compondo os disparates que vou escrevinhar.
É claro que, como escrevinhadora, sou uma boa dona de casa.
Falta-me saber, experiência e aquela pontinha de génio, que fazem de alguém um escritor ou jornalista.
Gostava muito de saber pôr cá fora, tudo o que tenho na cabeça. Agora é tarde.
Vou continuar a escrevinhar, contar coisas, sonhar que podia ter feito alguma coisa. Isso e alguns comentários amigos, já dão, para me sentir feliz.
Agradeço-te a oportunidade que me deste, de sair deste canto, para um lugar maior. Para mim, foi uma grande vitória.
Queijinhos de Tomar