quinta-feira, 30 de abril de 2009

Maio, o mês das flores, diz-se


Era Tomar e ao abrir a janela, havia um cheiro a flores no ar.
Nas floreiras do meu quarto havia sardinheiras de todas as cores.
A minha mãe gostava delas, eu não. Nem do cheiro, nem delas.
Em frente havia jardins cheios de flores, que não aquelas. Rosas, amores perfeitos, cravinas, cravos e violetas, violetas roxas, pequeninas, perfumadas. Tentava não sentir o cheiro das sardinheiras e, sentir só os outros. Saía de casa e, na Estrada da Serra havia maias amarelas, com um cheiro adocicado, havia papoilas sem cheiro, mas daquele vermelho que aquece a alma, havia margaridas, malmequeres, erva. E o cheiro da terra quente e húmida do orvalho. Descia a rua até à ponte, o rio corria, os salgueiros faziam um ruído manso, abanando ao de leve. Os patos do Nabão preparavam o ninho, os barbos saltavam. Dos cafés saía o cheiro de meias-de-leite e torradas. Das padarias vinha o inconfundível cheiro a pão acabado de cozer. Os cheiros da minha infância, os cheiros da minha terra.
Vasco, vê se me trazes uma flor. Uma maia ou outra, tanto faz. Não compres. Apanha numa rua, num jardim. Rouba uma flor para mim, uma flor, que mesmo murcha, traga um pouco do cheirinho de Tomar.
Até um dia destes.

18 comentários:

Osvaldo disse...

Olá Maria;

Como te compreendo... Como me fizeste recordar a Serra de Chavães da minha infância em que abriamos as janelas e viamos todas as flores silvestres, a água a descer o Ribeiro da Moa, as giestas floridas e até os tojos tinham outro encanto...

Como te compreendo, Maria.

bjs
Osvaldo

Maria disse...

Olá Osvaldo:

A Saudade é um sentimento danado de bom. Embora às vezes seja triste, leva-nos de novo a pessoas, lugares, cheiros, de tempos bons. A infância, que às vezes nem foi assim tão boa, aparece-nos nítida, terna, impar.
Traz-nos tudo o que tivemos e sonhámos.
Como nós somos saudosistas! Que geração de sonhadores!
Beijo.

Corvo disse...

Levo-te de terra um pedaço,
Apanhado à entrada do Mouchão
Pois é sítio onde sempre passo,
Para sentir salpicos do Nabão.

girassol disse...

Maria... esse teu menino!... Nem te digo nada!... Olha que é poeta e construtor de palavras. Usa-as bem. Deve sair à mãe.

As saudades dos lugares onde crescemos... As flores do campo, as veredas estreitinhas, os ribeiros que já não há... Quem dera!... Não quereria eu voltar atrás no tempo porque cada tempo tem o seu tempo de ser vivido mas certo é que não voltamos a viver a felicidade de crianças e onde a vivemos ficam as marcas que trazemos para onde quer que seja o nosso andar adiante.

Beijinho Maria dos Alcatruzes
Beijinho ao "motorista" teu marido.

Maria disse...

Corvo:

Traz-me a flor. Nada mais quero.
E se a Roda trabalhar,
Dá-lhe o meu amor sincero
E deixa-te salpicar.

Olha para a minha terra com amor.
Diz-lhe que um dia destes lá irei.
Que morro de saudades dela e do meu rio. Vai ao Mouchão, à Cerca, à minha rua. Traz-me queijinhos e os postais. Entra em São João, a minha Igreja, olha como é linda.
Diz ao Gualdim que mando cumprimentos.
Boa viagem. Vê bem o caminho que é lindo.
Beijo
Mãe

Maria disse...

Girassol:
Ele vai e eu fico cá por causa do canito. Se não fosse ele, já lá estava. Estou doida de saudades da minha terra. Ainda bem que ele vai.
Está a precisar de sair desta pasmaceira. Quando voltar, talvez ainda traga na roupa e nos cabelos, o cheiro das flores da minha terra.
Beijinhos para ti e para o Pintor.
Bom Fim de Semana

Luís Ribeiro disse...

O Rio que sobre ti passa
É lindo à noite, ao luar
A atmosfera que em ti paira
Dá vontade de cá voltar.

Sede dos Cavaleiros Templários
Dona do Convento, dos Pegões
És Terra com enorme História
E dona de muitos corações.

És famosa pela Festa dos Tabuleiros
Por todas as tuas ruas enfeitadas
És também conhecida por Cidade Templária
Graças a pessoas de outrora, que a ti foram dedicadas.

A flor, uma rosa amarela, está no "Tomar, a Cidade".

Beijinho e bom fim de semana

Kim disse...

Petite Marie!
Eu tinha as giestas, a estevas, as carqueijas.
Onde tinhas o Nabão, tinha um riacho, onde tinhas a cidade, tinha a serra.
Faltam-nos esses cheiros!
Vamo-los sentindo aqui!
Bjs

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariazita

Isto hoje, neste lugar,
é só boa versalhada.
E eu, que não sei lá chegar,
tenho uma inveja tramada.
O País é bom de rimas
De tias, avós e primas

É o Corvo, bom filhinho.
És tu por dias inteiros.
É o Ribeiro, fofinho,
ca Festa dos Tabuleiros.
Ora porra, olha-me essa!
Pobre da Minha Travessa

Eu, nos versos, sou um nabo
desconchavado, gingão;
bem visto, ao fim e ao cabo,
também sou um trapalhão
Será por causa da crise?
Quem me empurra – não me pise

Já chega de versalhada
Já chega de inspirações
Já está a coisa entornada
Já dei cabo do Camões.
Maria, és bué da fixe
E o resto – que se lixe

Qjs

Laura disse...

Nina Maria, a minha vida foi passada de terra em terra, de anos a anos, o trabalho do meu pai asism mandava... raramente ficavamos mais de 2 ou 4 anos num lugar, assim, foi mau para mim, para as amizades que ficavam pelo caminho...O que recordo é tudo da terra dos avós maternos, os dias semanas que lá passava, feliz, entre campos, a lavoura que os avós tudo cultivavam, tinham vacas, ovelhas, um cavalo, burros, e uns tios maravilhosos (na altura ehhh)e os cheiros que me acompanham são de lá, da terra linda, dos seres maravilhosos que lá viviam, todos meus amigos, e sempre que lá chegava, era um correr de casas de amigos, mas que bom, ir com o avô aos campos, abrir a água na lameira dalém, ir ao corisco, tapar a poça, e tantas terras que eles tinham...e a casa, linda, do ano de 1760, enorme, com uma varanda do tamanho da casa, umas vistas de sonho, cheia de sol e de luz, ah, Maria, Maria, são de e lá as recordações da minha infância, até aos 10 anos, que depois fui para a terra queimada, Luanda, e os cheiros passaram a ser da terra vermelha...Por isso todos os tmepos me lembram as terras por onde passei...Tomar, o meu pai levou-nos lá para estudar o Convento, as obras da nossa História, e eu era boa em História e nas Dinastias, nos nossos Reis, ah, adorava essa disciplina e acertava nas datas das batalhas...agora, já não me lembro de quase nada de datas...nem interessa..
Bons cheirinhos do monte, da urze, de tudo o que lá há..
Feliz dia e amanhã vou conhecer o nosso Kim e a querida Lisa...beijinhos.

Maria disse...

Olá Luís, meu primeiro amigo Tomarense desta coisa dos Blogs.
Creio que nunca publiquei isto:

Desterrada


Com os olhos de criança é que te vejo
Minha terra, meu berço de embalar,
Minha infância feliz, minha esperança,
Meu desejo constante de voltar.

Meu convento de sonho, meu rio verde
Correndo, como eu no teu jardim,
Minha lembrança que jamais se perde,
Meus sonhos de menina sem ter fim.

No dia que eu morrer irei lembrar
Todos os que amei e já perdi
E aqueles que ainda cá estão.

E, se virem, no meu rosto correr água,
Não pensem que são lágrimas de mágoa
São salpicos da Roda do Mouchão.

Maria

13 de Outubro de 2007

Obrigada pela poesia e pela rosa.
Um beijo

Maria disse...

Kim:
Graças aos amigos de Tomar, já recebi um campo de papoilas e uma rosa amarela.
Quando o Vasco voltar, verei nos olhos dele, o meu Nabão (rio), a minha rua, os jardins da minha infância.
Passamos a vida a olhar para trás, amigo.
Já sei que vais ver a Laurinha. D´-lhe beijos meus.
Boa viagem et bisous pour toi.

Maria disse...

Henrique:
Eu hoje estou um bocadinho desinpirada. O que mandei ao Luís já é antigo.
O que te mando foi feito em cima do joelho, em directo. Dá o desconto.
Cá vai

Oh Henrique tu não me digas
Que p’ra versos tu não tens jeito.
Vamos lá deixar-nos d’intrigas
Que isto até tá bem perfeito.

Num País onde tudo rima.
Basta usar uns inhos pelo meio,
Põe-se a avó, a tia e a prima
Fazendo versos dignos de premeio.

O difícil entre os portugueses
É achar um que não faça versos.
Seja por alegria, algumas vezes,
Seja por em desgosto estar imersos.

Ser poeta em Portugal é corriqueiro.
É no sangue que nos vem a poesia.
E a saudade, sentimento traiçoeiro,
Faz-nos poetas na dor e na alegria.


Agora amigo Henrique vou findar,
Agradecendo a tua poesia.
E acabo como sempre, por mandar
Queijinhos de Tomar e da Maria.

Maria disse...

Laura:
Quase todos guardamos da infância, as lembranças, os lugares, os cheiros.
A infância é um tempo mágico. Ao fim de uns tempos são as partes felizes que lembramos, escondendo em qualquer canto da memória, tudo o que foi mau.
Quando chegamos a certa idade, como eu, é sempre nas lembranças felizes desse tempo, que nos refugiamos, quando alguma coisa nos entristece ou preocupa.
O tempo passa, temos alegrias e tristezas, felicidade e desgostos, mas o tempo da infância é único.
Beijinhos nina. Já viste o Kim?
Até logo e diverte-te, minha flor de linho. Bem mereces.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

PASSATEMPO/CONCURSO

Está a decorrer n’A Minha Travessa do Ferreira, um novo passatempo/concurso sobre o tema Frases feitas. Vai até sexta-feira, 8.

Há prémios diversos para os três vencedores, incluindo os «prémios/mistério» que têm sido muito bem acolhidos por que os ganha.

Se quiseres dar lá um saltinho e tentar a sorte – muito obrigado. Lá te espero

Qjs

Maria disse...

Henrique:
Já vi o concurso e, estou farta de dar voltas à cabeça.
Se conseguir, respondo.
Queijinho

Corvo disse...

Como viste, não me esqueci das flores apanhadas na tua Terra. Aquelas vieram mesmo da terra, e não da loja. Mais, propriamente, da Mata dos Sete Montes.
Os queijinhos é que não consegui arranjar, talvez pelo feriado e fim-de-semana... Não apanhei os salpicos do Nabão, junto à roda, pois esta está parada, porque os açudes ainda não estão feitos - só lá estão as estacas - e além disso está uma árvore caída para cima da roda.

Beijos de Lisboa.

Maria disse...

Meu Corvo:
Trouxeste as flores, a companhia que me faltava e um leve perfume da minha terra. Que diabo está a fazer a árvore em cima da minha roda? Se lá vou, aproveito-a para ajudar a fazer o açude.
Fiquei contente de lá ires. Tu gostas da terra e, ela gosta de ti.
Talvez lhe lembres uma menina de trancinhas e bibe aos quadradinhos, que por lá andou um dia.
Beijinho
Mãe