quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Carta a meu Pai

Esta carta foi escrita há dez anos, alguns dias antes da sua morte.
Ainda sob a influência da morte do Amigo Moa, decidi publicá-la.
Meu pai nunca a leu. Levou-a para o crematório e foi cremada com ele.
É triste, como triste estava, quando a escrevi, como triste estou hoje.

Meu querido Pai:

Nesta carta que, nunca lerás mas que, é escrita para ti, para mim, para todos os que amaste e, te amaram, tentarei contar quem foste e, quem és agora.
Foste o bebé mais bonito da minha avó, o homem belo e forte que, a minha Mãe amou até à morte, o Pai nem sempre tolerante, nem sempre compressivo mas, muitas vezes o companheiro alegre e meigo, o Pai que, não podendo comprar brinquedos, os fazia à força de algum engenho e muito amor, o Avô que, todos os netos adoraram.
Foste alguém que, ganhou o pão de cada dia, sem pensar muito no dia seguinte. Alguém que, perdendo o pai muito cedo, cedo teve que trabalhar, instruir-se, fazer-se homem, sempre só.
Tinhas uma enorme cultura, conseguida por ti.
Foste aquele que, era o centro das atenções, na mesa do café, no emprego, na família. A mesa das refeições, não era só para comer. Ao mesmo tempo, servia de aula de História, de Literatura, até de política. Sempre disseste que eras Socialista mas, a tua política era sempre, contra tudo. Querias um mundo onde todos fossem iguais.
Eras forte, o último argumento era teu, fosse palavra ou, um murro na mesa. Tinhas que ter sempre razão.
Agora Pai, com quase 92 anos, (será que os farás?) estás frágil, com foste ao colo da tua mãe mas sem o seu carinho a acalentar-te, ainda bonito, como o jovem que minha Mãe amou mas, sem a força que, a fazia sentir-se protegida. És ainda, o Pai que adoramos mas, a quem não pudemos ajudar.
Ver-te assim, entregue, sem ouvir, sem falar, apenas uma queixa quase imperceptível, um gemido fraco, dói muito, meu Pai.
Perdoa-me mas, já só posso pedir a Deus, à minha Mãe e a avó que, te levem depressa.
Não é falta de amor, meu velhinho querido. Quero que adormeças depressa e despertes entre o amor das duas. Quero puder falar de ti aos meus netos, contar-lhes como eras, sem esta dor que me rasga a alma.
Fica tanto para dizer de ti! Mas, hoje não, Pai.
Agora, só queria chorar.
Gosto muito de ti. Por isso, quero que partas.
Adeus Pai. O Adeus mais triste e doloroso da minha vida.
Um penúltimo beijo e, todo o meu amor.
O último será Depois.
O meu amor por ti será eterno.
Tua
Filha.

Até um dia destes, amigos.
Abreijos
Maria

31 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariamiga

Muito bem, muito bem, muito bem. Fizeste o favor de dar a conhecer à tua gente que te segue aqui a carta linda que escreveste a um destinatário que já não a recebeu: teu Pai.

E tiveste ainda a coragem de o fazer; só quem não te conhecesse (e não é o meu caso) poderia pensar que não o farias. Erro estulto: fizeste-o e deste-me (nos) mais uma prova da tua tempera - o que, aliás, não seria necessário.

Esta prova de Amor filial, assim dada a conhecer, só aumenta a consideração que já tinha de ti. Muito obrigado por esta dádiva.

3abçs e qjs doces para tu

Maria disse...

Henriquamigo
Amei e admirei o meu pai, aliás, amo e admiro o meu pai. Foi pai, às vezes muito meigo, outras muito severo. Foi mestre de quase tudo o que sei.Como avô foi perfeito. Os netos ainda hoje, falam dele com imensa ternura. Os meus netos, apesar de serem pequeninos, quando ele morreu, lembram-se dele.
Nunca poderei dizer que, foi um homem perfeito. Graças a Deus não foi. Era extremamente bom e justo.
Bom conversador, bom garfo, bom copo. Amou muito a minha mãe e a nós. Depois de um período de ciúme do homem que lhe roubou a menina, gostou do João, como se fosse filho.
Até nisso tivemos sorte, eu e o santinho. As nossas famílias adoptaram-nos quase logo. Nunca houve, a tua família, a minha família. Sempre tem sido a NOSSA família.
Claro que hoje sinto muito a falta dele. Amanhã será melhor.
Abrçs dos homes, beijinho para a Raquel e fatias de Tomar (hoje é dia de Santa Iria) para tu
Maria

Je Vois La Vie en Vert disse...

As diversas dores que tenho no meu coração ainda não me permitam comentar ... Perdoa-me

Beijinhos
Verdinha

Ritinha disse...

Querida Maria, essa carta foi uma
das cartas mais comoventes e bonitas que eu já li *.*

Beijinho

Vasco disse...

Estava a relêr essa carta e, cada palavra que lia, logo me lembrava da próxima.
Uma descrição leal.

Beijinho para a fila do neto Vasco.

Maria disse...

Verdinha querida
Não precisas comentar.
Os beijinhos chegam.
Um abraço
Maria

Maria disse...

Querida Ritinha
Há cartas muito mais bonitas. Esta, acima de tudo, só tem o facto de ser totalmente sincera. Pode parecer a alguns, falta de amor, brutalidade até, eu ter desejado a morte do meu pai. Para mim, foi a maior prova de amor que lhe dei. Nunca me arrependi mas, sinto muito a falta dele.
Obrigada querida, pelo teu comentário.
Beijinho grande
Maria

Maria disse...

Filho
Tu que assististe e partilhaste a minha dor e a minha revolta, sabes melhor que ninguém, o que sofri e sofro.
Ainda hoje vejo os olhos dele, fitarem-nos aos dois, os dois últimos beijos que, foram nossos, as lágrimas que te vi chorar e, a frase que disseste: "Os outros netos perderam o avô. Eu perdi o avô e o meu maior amigo.
Sê sempre como ele te queria: digno, honesto, bom.
Beijinho
Mãe

Laura disse...

Maria, Maria, que pai merecia uma carta assim? Não querias que sofresse e com razão, mas, de onde está ele olha-te sempre com ternura, nunca deixaste de ser a Maria dele, a filha querida que levou no coração! Os pais quando amam, amam com toda a força da alma e fizeste lembrar o meu que se formou sozinho e sem pai desde que nasceu...mas era um pai que me amava e ama ainda, tanto, tanto...

Gostei de te ler nesta prova de amor filial.

Um apertadinho abraço da flor de linho.

laura

Maria disse...

Laurinha amiga
Este pai, foi o meu grande amor, até conhecer o João e ter os filhos. Ocupou sempre uma grande parte do meu coração e da minha vida.
Quando saí de casa dele e vim para Lisboa, ele pediu a reforma e veio para cá, para não estarmos longe um do outro. Veio viver para pertinho de mim e dos netos.
Ainda hoje é o meu confidente e me ajuda a resolver os problemas.
Levou com ele o meu amor e de todos os que o conheceram.
Ele e o Moa têm muita coisa um do outro.
Obrigada, minha Flor de linho.
Beijinho
Maria

Alva disse...

Entendo tão bem esse "pedido" a alguém que amamos para partir.
Partir para não sofrer...

Ainda não consigo comentar. Desculpa.

Beijinhos,
Da tua Pequenina

Maria disse...

Pequenina
Comentaste da melhor maneira.
Entendendo, as minhas razões.
Obrigada, minha amiguinha, tão jovem e tão sensata.
Mil beijinhos da
Maria

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Maria, querida irmã portuguesa

Bela carta de amor filial.Fui me comovendo, à cada palavra.
Quero dizer-lhe que, quando o meu pai estava em seus momentos finais, sofrendo, como toda a família, supliquei à Deus que abreviasse logo a sua vida. Esse gesto, não é falta de amor, muito pelo contrário.
Meu pai tinha 82 anos e minha mãe ainda ficou mais 4 anos conosco, na nossa saudade...Essas saudades, são para sempre, tal o nosso amor por eles.

Você é uma Fortaleza, por ter escrito essa carta, à epoca, e agora tê-la reescrito...compartilhando-a com os amigos. Obrigada!

Abraço fraterno,
da mana Lúcia

Maria disse...

Lucinha amiga
Essa carta foi um grito de desespero.
Já não podia vê-lo sofrer tanto. Era um pavor. Ele que sempre amara a vida, que não gostava do sofrimento, ali, sem forças para lutar! Foi uma dor tão grande como perdê-lo.
Ainda, às vezes me esqueço da ausência dele e, penso que tenho que lhe perguntar alguma coisa, pedir um conselho.
Obrigada, irmãzinha brasileira.
Beijinho da
Maria

Olinda Melo disse...

Querida Maria

Só agora pude aqui chegar e comungar um pouco desse amor filial. Revejo-me em tudo o que diz.Lembro-me da minha mãe, de 86 anos, no seu grande sofrimento, querendo-a para sempre connosco mas ao mesmo tempo desejando que na sua partida encontrasse a paz que ela tanto merecia.São sentimentos desencontrados que traduzem um amor indizível.

Beijos

Olinda

Maria disse...

Olinda

Foi isto que senti. Queria muito o meu pai vivo. Mas, como era até 2 anos antes de morrer. Com as doenças próprias da idade mas, a cabeça perfeita, mexendo por todo o lado, fazendo por ser feliz. Naqueles dois anos, foi perdendo tudo, a pouco e pouco e, eu sabia que ele não era feliz e, sofria muito fisicamente.
Ainda me faz e fará sempre, muita falta.
Obrigada, amiga
Beijinho
Maria

DAD disse...

Querida Amiga,
Se for possível podes enviar-me um email para dadpintora@gmail.com a explicar-me bem como é isso de ver quem passou o virus nos Blogs do andré Moa para eu poder tratar disso? É que agora verifiquei que só o Diário de um paciente 2 é que está bom. Os outros pode entrar-se mas vêem-se os posts em branco.
Beijinhos e obrigada!

DAD disse...

E o post sobre o teu pai, está lindo!Ainda chorei ao lê-lo.
Beijinhos grandes,

Kim disse...

Oh Petite Marie!
Falar de um pai na hora da despedida é algo terrivel e triste. No entanto, quando essa é a melhor solução para evitar mais sofrimento, então junto a minha voz à tua e imploro a sua partida.
Andamos todos numa fase depressiva e saudosista, mas às vezes também faz falta.
Beijinho

Maria disse...

Dad amiga
Espero que tenhas conseguido resolver o problema dos blogues do André.
"O Diário" está bem. Os outros dois, eu vejo-os mais ou menos. O "Olhar de Xisto" tinha o tal bicharoco que, te falei.
Vou mandar-te no email o nº do telefone e, talvez o meu marido, te ajude a resolver o caso.
Obrigada pelo teu comentário.
Beijinho
Maria

Maria disse...

Kim amigo
Aquela carta foi muito dolorosa de escrever, na altura, foi muito dolorosa de publicar, agora. Como me foi muito dolorosa a última conversa que, tive com ele. Ás vezes, tenho uma necessidade doentia, de reabrir feridas que, ficaram mal fechadas.
O facto de o Moa ter morrido pouco antes de fazer 10 anos que o meu pai morreu, abalou-me, trouxe-me à memória, uma altura horrorosa da minha vida. Como amei o meu pai, Kim! Como ainda o amo! Se alguma vez tive um ídolo, foi ele.
Tens razão. Andamos muito saudosistas. A culpa é do outono e, a perda desse ser único que, foi o Moa.
Temos que seguir o exemplo dele e, continuar a viver, com coragem e determinação. Com ele e meu pai, aprendi que, só vale a pena viver em pleno.
Bora lá, como dizem os putos.
Beijinhos da
Petite Marie

Histórias de Nós disse...

Querida Maria
que carta tristemente linda, por tão sentida, tão carregada de amor!
Percebo perfeitamente a necessidade de despejar em palavras uma despedida, uma declaração de amor. Tamém o fiz quando o meu avô morreu. De alguma forma parece que ajuda, que aligeira por momentos o peso da morte.
BJS

Maria disse...

Olá "Histórias de nós"
É verdade que alivia um pouco. Um grito que se dá, em alguns momentos descomprime o peito.
Obrigada por esta visita e pelo seu comentário.
Beijo
Maria

O Bicho disse...

Maria
Ando há 10 dias a tentar comentar este post.
Por várias ocasiões, comecei a escrever, mas foi difícil deixar aqui a minha contribuição, opinião, ou simplesmente uma palavra amiga, porque a tua carta e, acima de tudo, o tema, são muito comoventes.
Ao pensar no assunto, sou levado pelas minhas lembranças a recuar no tempo, muitos, muitos anos, meia vida, 45 anos – foi há 45 anos que o meu Pai faleceu, tinha ele então 45 anos de idade.
É aqui que a emoção toma conta de mim, a razão bloqueia e para escrever alguma coisa com sentido, é preciso raciocinar...
Já percebi que tenho uma certa dificuldade em controlar as emoções. É um sinal da depressão.
Bj

Maria disse...

Bicho, meu querido amigo
Não chames depressão à tua extrema sensibilidade.
Perder um pai de 92 anos é horrível, sobretudo quando esse pai é, o que o meu era para mim. Nem o facto de ter marido, filhos e netos, diminui a dor da perda.
Mas tu, eras muito miúdo, o teu pai muito novo e, sentiste desamparo, revolta, de mistura com outros sentimentos. Todos falam muito da mãe, do seu amor sem igual e, esquecem-se da importância que o pai tem na vida dos filhos.
Torga que, perdeu o pai, já ele homem feito, comenta que, só nesse dia, se sentiu verdadeiramente responsável, pelos seus actos.
Agradeço o grande esforço que fizeste em deixar um comentário aqui. Deve ter-te custado muito.
Vou ficar-te sempre grata por isso.
Beijinhos, amigo
Maria

Green Knight disse...

Amiga Maria também penso escrever uma longa carta ao meu pai.
Será uma carta muito difícil.
Todos os dias guardo alguns minutos para tentar entendêlo.
Obrigado pela tua frontalidade nesta partilha.
Foram outros tempos e só no local a analize seria entendível.
Talvez um dia se possa viajar ao passado e ao futuro
Beijinho Maria e abraços ao marido e ao filho.
jrom

Maria disse...

Jrom amigo
Escrever a um pai nem sempre é fácil.
Se temos que voltar ao passado, pensa-se demais. Misturam-se muitos sentimentos, lembranças boas e más, remorsos e razões de queixa. Depois de conseguirmos, sentimos-nos aliviados, livres.
Um dia, cara a cara, falaremos sobre isso, sim?
Beijo amigo
Maria

Green Knight disse...

Mais uma vez a tua sensibilidade me impressiona.
Obrigado por te predispores, a falarmos num assunto de tão grande intimidade.Não tenho dúvidas de que serias um interlocutor de confiança, para me fazeres soltar o que me parece cimento.
Obrigado
bjs minha amiga
jrom

Je Vois La Vie en Vert disse...

Tudo o que não foi dito aos pais por timidez, por respeito, por medo, por teimosia, até por rancor em certos casos, tenho a certeza que se pode dizer agora porque é no lugar onde se encontram agora que podem entender tudo o que ficou retido no interior do nosso ser. A paz e a Luz que os envolve lhes permite isso.
Beijinhos, meus amigos.
Verdinha

Maria disse...

Jrom amigo
Por vezes, sem querermos, num qualquer momento, alguma coisa nos explica o porquê, desses bloqueios.
Há sempre diferenças entre pais e filhos. Aconteceu-me isso com a minha mãe. Hoje entendo muito do que passou entre nós. Somos demasiado parecidas.
Por outro lado, eu tinha uma relação tão completa com o meu pai que, nunca quis entender que isso às vezes a magoava.
Tenho três filhos, dou-me bem com os dois rapazes e, tenho uma relação muito menos aberta com ela.
Porquê? Não é culpa dela, nem minha. Talvez seja a mesma coisa que me afastou da minha mãe.
A vida é assim.
Beijinho
Maria

Maria disse...

Verdinha querida
Com a minha mãe, felizmente, tudo ficou resolvido durante os 6 últimos meses de vida.
Espero que com a minha filhinha aconteça o mesmo.
Quero acreditar que, agora, a minha mãe saiba como a amo ainda.
Obrigada, querida.
Abraço
Maria