segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Ninho vazio


A minha casa tem cinco assoalhadas. Quando a vim habitar estava quase vazia de móveis e parecia enorme. No entanto havia um casal novo, dois filhos pequeninos, vasos com flores do campo, muito amor, muita alegria e pouco dinheiro. Todo o dia se ouvia barulho. Crianças a palrar, música de um velho gira-discos, amigos que vinham tocar com o meu marido. Ele trabalhava na altura nos estúdios e só entrava às quatro da tarde, assim como os outros dois. Juntavam-se aqui em casa e desafinavam algumas horas. Um trombone de varas (o meu marido), um saxofone e uma viola. Faziam (des)concertos que duravam horas. Os putos comiam, dormiam, brincavam ao som daquela barafunda. Malucos? Sem dúvida nenhuma, mas felizes. Às vezes eu fazia almoço para todos, sempre o mesmo prato. Todos colaboravam nas compras. Com meio frango, uma lata de salsichas, outra de ervilhas, algumas lulas, miolo de berbigão (por 3$00 comprava 1Kg) e arroz, fazia um belo “arroz à moda de Odivelas”, receita que a Madre Paula me deixou. Só vos digo que regadinho por umas Sagres era uma delícia. Tinha outros ingredientes: amizade, camaradagem e juventude... Será que o B. A. e o A. S. se lembram?
E agora perguntam vocês, a que propósito vem esta história? Eu digo. Hoje a casa é a mesma, só que está cheia de móveis, mas de repente parece mais vazia.
Chegámos a ser cinco. Ficámos dois e o Nabão. Nada de novo. Já assim é há quase dois anos, desde que o Vasco foi para a sua casa. Agora esteve cá uns dias e pareceu-me ter voltado atrás no tempo.
Porque é que os filhos crescem e vão embora? Pois... nós fizemos o mesmo, é a vida, até os passarinhos deixam os ninhos dos pais... Frases. Só frases. Estou farta de as ouvir, estou farta de as dizer. Mas que adianta? A casa está igual, tirando os benditos enfeites de Natal que já me começam a irritar. E aqui estamos nós (e o Nabão, claro) fingindo que está tudo bem, tudo certo. Sentindo o vazio da casa e continuando apesar disso felizes porque estamos os dois, felizes porque ao fim de 42 anos em algumas coisas ainda somos os mesmos e nos temos um ao outro. Eles, os filhos, um dia talvez sintam o mesmo e então talvez encontrem explicação para algumas coisas que hoje não entendem.
Bem. Vou tirar os enfeites. É que me estão mesmo a irritar.
Até um dia destes.

4 comentários:

Kim disse...

Pois é Marie! Um ninho sem passarinhos não é o mesmo. Mas todos sabemos que essa é a lei natural da vida. Dá-te por feliz, porque teres o João e o Nabão, pois nem todo(a)s se podem disso gabar.
Os filhos, depois de criados, são uma miragem no horizonte como já nós fomos.
Beijinhos Petite!

Anónimo disse...

Kim:
É mesmo isso.
Faz dia 7 anos que casei, mas ainda fiquei 2 anos a viver com os meus pais.
De certa forma, ainda lhes fiz pior. Quando saí, trouxe comigo o genro, que já era um filho e dois netos que eles adoravam. O meu pai ficou completamente desasado. Tanto, que se reformou e veio viver par o pé de mim. Havia entre nós dois uma cumplicidade muito grande e ele não aguentou a separação. Há sete anos foi ele que partiu, levando nos olhos a minha imagem e eu fiquei sem uma parte muito grande de mim.
É assim a vida. Um dia são os filhos que saem do ninho, um dia são os pais que partem deixando um vazio enorme.
Tudo isto tem que ser assim, porque faz parte da vida.
Beijinho
Maria

Alfredo Caiano Silvestre disse...

E que sorte têm eles por poderem voltar ao ninho...

Anónimo disse...

Alfredo:
É verdade. Eles voltam por uns dias e depois o ninho ainda fica mais vazio. É muito bom estender as asas sobre todos, mas quando vão embora, as asas já não abrigam se não os nossos corpos gelados.
Maria