quinta-feira, 21 de maio de 2009

Dia da Espiga


Se bem me lembro...no Dia da Espiga não havia escola de tarde. As mães preparavam o cabazinho com a merenda e, a seguir ao almoço, partíamos em grandes e coloridos grupos, em busca dum campo onde houvesse todos os pertences para a Espiga ser perfeita. Em Tomar era fácil, nesse tempo. Bastava ir aos Pegões, aos campos entre Santa Maria e Marmelais, à Estrada da Serra.
Campos cobertos de papoilas, espigas à discrição, oliveiras, alfazema ou rosmaninho, havia tudo. As mães sentavam-se à sombra conversando, fazendo renda, deitando o olhinho cuidadoso e curioso para os seus passarinhos livres. Era uma bebedeira de luz, cor e algazarra. Às cores, cheiros e sons da Natureza, juntavam-se as cores garridas dos nossos vestidos e laçarotes, o ruído das palavras e gritos lançados à brisa leve de Maio. Trepávamos árvores, corríamos, cantávamos velhas canções de outrora, colhíamos a Espiga, fazíamos bailarinas com as papoilas, coroas de flores, com que enfeitávamos as cabeças das mães e as nossas. Depois da merenda, no regresso a casa, as correrias e brincadeiras continuavam. Os carros eram poucos ou nenhuns, não havia perigo.
A Espiga, pendurava-se atrás da porta da cozinha, no mesmo local onde estivera a do ano anterior. O Pão Santo, guardado um ano antes, devidia-se e era distribuído por todos. Estava mole, o Pão, ou os dentes achavam. Novo Pão era guardado para o ano seguinte.
Banho tomado, jantar comido, esperava-nos a cama fresca e acolhedora, que os corpos pequenos reclamavam. Dormíamos felizes com a certeza de que não nos iria faltar o pão de cada dia.
O Pão Santo e a Espiga estavam lá, para o assegurar.
Oh minha infância onde estás? Onde os campos de papoilas, as mães, a crença de que tudo era fácil e certo, porque tínhamos apanhado a Espiga?
Mas que grande espiga! Para o que me havia de dar hoje.
É quinta-feira de Espiga, amigos. Comprem um raminho na rua. Custa pouco e é a tradição. Além disso, eu não acredito em espigas, mas que as há, há.
Até um dia destes.

20 comentários:

girassol disse...

Comprar a espiga, Maria?!?!?!...
-Não!!!... Isso não se faz que não tem o mesmo sentido. Claro que para quem vive na cidade e sempre viveu não faz a menor diferença mas para nós que trazemos a memória que tão bem aqui lembras...

Comigo não era bem assim mas muito parecido. Íamos com a professora e a menina Maria Inácia (que era uma senhora que tomava conta da escola) passear a tarde toda. Levávamos lanche e brincávamos e apanhávamos a espiga toda composta com tudo o que tinha direito. Uma espiga como deve ser.

O meu menino, o joão, acabou de chegar da escolinha e todo feliz e contente porque foram apanhar a espiga. Tão pobrezinha a espiguinha coitada e sem nem um malmequerzinho nem uma papoilazinha para alegrar e dar todo o sentido de cor e de vida e de fartura que se espera perdure em todo o ano que se segue. Bom, pelo menos trazia uma espiga de trigo bem grande o que, a ser como dantes, quererá dizer que pãozinho não faltará. Mas ele vinha feliz ao menos pela passeata.

Beijinho nosso daqui para vocês. Abraço do pintor e beijinhos do Janita que agora vai para o banhinho que o passeio fez que escorra suor...

Maria disse...

Girassol:
É fácil aí, onde a Natureza ainda dá leis, apanhar uma Espiga de verdade. Aqui, nos poucos campos que resistem, se fores lá apanhar a Espiga, arriscas-te a encontrar seringas, papéis prateados, cascas de limão, porcaria de cão e outras coisas que nada têm a ver com a antiga Espiga. Assim, como prémio de consolação, fico-me pela comprada pelo meu filho.
Nesses campos onde hoje o feliz Janita apanhou a Espiga, deve meu pai, ter apanhado muitas.
Faz-me pena e saudades não apanhar uma Espiga de verdade.
Beijinhos para todos vós.

Luís Ribeiro disse...

Olá Maria:
Eu tive o privilégio de viver até aos meus 18 anos em redor da espiga, das oliveiras, das papoilas e muito mais. Não sei se Tomar ainda vive essa tradição, mas lembro-me que na escola primária ia-mos para o campo.

Talvez ainda exista, mas como não estou a par não sei. Poderei saber, perguntando a meus sobrinhos.

Beijinhos e continuação e excelentes histórias.

Maria disse...

Olá Luís:
Em Loulé hoje é feriado. A minha filha vive lá. Acho que em mais terras do Algarve, acontece o mesmo.
Aí, no meu tempo, não era feriado obrigatório, mas os miúdos tinham-no da parte da tarde. Havia a tradição da Espiga em Tomar de então. Se souber como é agora, conte.
Beijinho, meu amigo

girassol disse...

Ó Maria adoraria poder fazer-te uma surpresa que preparei há bocadinho enquanto fazia a sopa do jantar. Fui buscar coentros e não é que me deu para apanhar umas papoilas e fazer bailarinas... Fotografei-as e tudo pensando que haveria aqui email teu e mandava-tas. Até fiquei desiludida. Vinha mandar-tas antes de irmos comer a sopinha do jantar. Se quiseres envia-me o teu email para o meu bmirita@gmail.com
Beijinhos
Que tristeza!... :(

Maria disse...

Girassol:
Já mandei o Email.
Estou mortinha por ver as bailarinas.
Obrigada por te teres lembrado de mim.
Beijinho, minha amiga.

girassol disse...

Ai Maria já lá tão as bailarinas no mail. Não te desiludas tu agora que acho que eram feitas assim mas pode ter-me escapado algum pormenor...

Bjinhobjinho

Maria disse...

Girassol:
Estão lindas.
Tens um recado no Email.
Beijinho

Kim disse...

Também eu adorava apanhar a espiga. Comprá-la, não!
Não é que não o tenha já feito, mas o simbolismo não é o mesmo.
Agora que estamos já muito espigados temos saudades de tudo.
Mocidade, mocidade, porque fugiste de mim ...
Calvário canta o resto.
Beijinhos Petite Marie!

Maria disse...

Kim:
Esta coisa da Saudade é um bicho que ataca a gente e nunca mais nos larga.
Saudades dos que partiram, saudades dos que não vemos, saudadesda mocidade, saudades da infância, saudades de uma Espiga apanhada num dia de sol, que ficou lá longe no tempo.
Às vezes ataca-nos de tal forma, que chegamos a ter saudades de nós mesmos.
A saudade é uma grande Espiga, amigo.
Às vezes chego a pensar que é ela que me mantem viva.
Beijinho

Agulheta disse...

Maria. Que bom é ler e recordar as tradições,mas só essas ficam,pois nas gerações actuais até riem quando lhe contamos certas coisas,por estes lados nunca ouvi falar disto.
Beijinho bfs

Maria disse...

Agulheta:
As nossas tradições vão desaparecendo, absorvidas por dias e tradições importadas de outros países (Dia das bruxas, dia dos namorados dia disto e daquilo), que só servem para gastar dinheiro e nada dizem aos velhos como eu.
Continuo a respeitar as nossas tradições, algumas muito bonitas, como é o caso desta, do "pão por Deus" no dia 1 de Novembro, os 3 santinhos populares e outras. São nossas de raiz. Tudo muda amiga, mas para mim não. Eu serei sempre a Maria, que gosta de coisas simples, respeita as crenças de toda a gente, ama Portugal e os portugueses, apesar de tudo.
Obrigada pelo seu comentário.
Beijinho

Laura disse...

Maria, maria, já não me lembro, pois andei em escolas diferentes e, com dez anos parti para África e assim...qual espiga qual carapuça... gostei de ler-te e imaginei-te de bata, bibe a correr pelos campos à procura da espiga melhor, mais bonita, de papoilas, as flores dos campos que mais gosto, agora aparece uma aqui, outra ali e já não são mais os campos de outrora...
Adoraria ver a foto do que a girassol fez para ti, vou ver se ela me envia para eu ver só, só ver, porque adoro. Lembro-me de entrar em casas que as tinham penduradas atrás das portas, mas, nem sabia o porquê disso...
Muitos beijinhos e a saudade é linda, e eu que nem era muito saudosa, agora só olho para trás...bem sei que isso nos impede de andar em frente, mas, é a vida...ai que suspiros longos eu dou...beijinhos. da laura.

Maria disse...

Minha flor de linho:

Sabes qual era a minha tarefa preferida na apanha da Espiga? Era trepar as oliveiras. Trepava árvores como um macaquinho, eu. Era Maria rapaz, corria muito. Em casa ficava horas a tratar das minhas "filhas" bonecas, ou agarrada a um livro. Depois fazia muitas perguntas ao meu pai do que tinha lido. Fui uma menina como as outras, de trancinhas e laçarotes.
Qualquer dia mando-te uma foto da minha comunhão solene. Foi um dia muito bonito.
Beijinho a ti

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mar... ota

Pois sim senhor, eu também me espiguei. No Vale de Santarém, onde morava a minha tia-avó Etelvina, solteirona e um amor de pessoa. Quinta-feira da dita - era dita e feita. E à noite, deita.

Os meus pais tinham decretado que era um dia de alto na semana. Metiam-nos no Morris Minor (a mim e aos meus dois irmãos) e ala que se faz tarde.

Asenhora Maria Martins, criada mais velha do que a velha tia Etelvina, já avisara os homens que iam para o campo de que era o nosso dia. Estava tudo preparado, preparadíssimo.

Vinham também uns primos mais para apanhar a espiga. Com todos os ingredientes q.b., desde as papoilas até ao glorioso lanche Que esperava pela malta, à volta dos afogueados crianços.

A Luisinha, filha do quinteiro e um ano mais velha do que eu, foi a minha primeira e grande paixão. Cá o rpaz ia nos oito anos, ela nos nove, portanto. Numa abençoada quinta-feira, dei-lhe um beijo corado, na face corada. Começava aí a minha «intensa» vida sexual...

Só que eu não usava tranças. A Luisinha, sim. Com laçarotes às pintinhas.

Qjs

Para que foste desenterrar a espiga, Maria? Eu, mesmo que o quisera, nem sei onde a poderia comprar, embrulhada em papel celofane...

Maria disse...

Caro Henrique:
Ouvi muitas vezes na voz linda da minha mãe, esta canção chamada "Dia da Espiga", salvo erro da Revista "Cabaz de morangos".
Vê se te diz alguma coisa.

A Espiga
Jorra o vinho dos pichéis
Para os lábios das moçoilas,
Mais vermelhas que papoilas
Co’ as larachas dos Maneis.

Há merendas pelos prados,
Gargalhadas pelo ar,
E à beirinha dos valados
Ouve a gente murmurar:

Refrão
Maria, são teus olhos azeitonas!
Cachopa, são teus lábios qual cereja!
E os teus seios, cachos d’uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja!...

Não me lembro dos autores. Lembras-te?
Saudade! Para quê inventamos esta palavra, amigo? Ela dói, magôa, mas é tão doce!
Garrett pôs estas palavras na boca de Camões:

Saudade! Gosto amargo de infelizes,

Delicioso pungir de acerbo espinho,

Que me estás repassando o íntimo peito

É assim a nossa palavra mais bonita: amarga e doce, alegr e trite. Mas é tão lindo sentir SAUDADE!

Queijinhos de Tomar.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Marininhita

Passo a correr (... hahahahaha, como se fosse capaz...) para te dizer que em 1959 (vai fazer agora meio século) na festa de finalistas do Lyceu (é assim que ainda lá está, no frontespício) Camões, integrado no celebérrimo Conjunto Académico do Zarolho, interpretei a dita cuja, pois eu era o... vocalista. Tocar, tocavam os outros; eu, só campaínhas de porta.

Isso quase me (nos) valeu processo disciplinar e suspensão. O reitor Sérvulo Correia, aliás o Cabeça de Bigorna, entendeu que os seios das moçoilas não podiam ser, de maneira nenhuma, cachos de uvas voluntariamente abandonados aos lábios ímpios e sensuais dos gajos do conjunto. Mas, safámo-nos... Um dia te conto como e porquê...

... e vens tu agora, mininininha, provocadoramente, despudoradamente, publicar uma tal letra orgíaco-pornográfica. T'arrenego, Sata..., digo, Alcatruzes. Deixaste-me à nora...

Qjs & abs ao teu Santo e pobre metado

Laura disse...

Olaré, vim deixar-te um abracinho bem apertado, e levar comigo o cheirinho da flor de linho...Laura..

Maria disse...

Henrique:
Cantigas de antigamente que todos cantamos ou ouvimos. O som ou as palavras delas trazem num minuto, lembranças enterradas no fundo da memória.
Às vezes dou comigo a cantarolar baixinho, desde velhos fados a músicas dos Beatles, de Aznavour a tangos de Gardel, até árias de Ópera. É, verdade. Há qualquer parafuso nesta cabeça que está mal apertado.
Queijinhos

Maria disse...

Laurinha:
Tesm uma surpresa no Email.
Beijinhos
Maria