sábado, 16 de maio de 2009

Ensino


Quando entrei para a 1ª classe da instrução primária, dentro da minha mala havia: Um livro de leitura, uma tabuada, um caderno de duas linhas, um de uma linha, um quadriculado, um de desenho, um lápis, uma pena (sim, uma pena daquelas de molhar no tinteiro), uma borracha, um apara lápis, uma lousa, um palito de lousa, um trapo para apagar e às vezes, alguns lápis de cor. O tinteiro estava metido num buraco da carteira. Pesava pouco, a mala. Até à 3ª classe só mudava o livro. O resto do material era o mesmo. Na 4ª já havia quatro livros: um de leitura, um de História de Portugal, um de Geografia, um de Aritmética. Com estes elementos aprendia-se a ler, fazer contas e problemas, os rios, as serras, os nomes das províncias, as terras e até as linhas de combóio, a História de Portugal desde o Viriato até à altura em que estávamos. Quando se fazia a 4ª classe, sabia-se fazer contas, sabia-se ler e escrever na perfeição, tinha-se um conhecimento relativamente bom de História e Geografia.
No Liceu havia um livro por Disciplina e mais algum material. Nada que as nossas costas não aguentassem.
Agora é diferente. Os livros são aos três e quatro por Disciplina. Os cadernos idem, o material aumentou em quantidade e qualidade. As costas dos garotos vergam ao peso de tanta tralha. A erudição em contrapartida decresce a olhos vistos, os problemas de coluna crescem da mesma maneira.
Os pais queixam-se cheios de razão, que gastam balúrdios em livros, alguns dos quais nem chegam a ser abertos. Os putos não aprendem mais do que nós, pelo contrário.
Isto tudo me veio à cabeça, porque hoje ao tentar ajudar uma amiguinha numas dúvidas de História, me deparei com três livros, praticamente iguais e todos eles pouco elucidativos. Lá fui tentando desembaraçar a meada, até que me deparei com a palavra “Reculectar”. Ora se há coisa de que me posso gabar, é ter um vasto vocabulário. Procurei e descobri que: “Reculectar é: apanhar lenha e arbustos selvagens”. Não se cansem a ir ver aos dicionários pois não vem lá. Corri todos os manuais que ela tinha e foi assim que descobri. Agora imaginem a cena: “A ti Maria Alentejana berrando pró sê homi: Ó Tóino vai-me reculectar uma pouca de lenha modeu fazer o lumi!”
Imaginaram?
A cultura é muito bonita!
Estou a tentar brincar, mas olhem que isto é muito sério. Estou a falar nos homens e mulheres de amanhã. Com o ensino que temos, onde é que vão chegar?
As escolas não têm segurança, os professores não têm condições para trabalhar, não há disciplina nem respeito, não se aprende nada de útil nem de prático.
Para quando uma revolução no ensino? Mas uma coisa séria, não estas palhaçadas que fazem agora.
Não há pedagogos? Não há metodólogos?
A esperança de um povo são as crianças. Pensem nelas por favor. Pensem num ensino lógico, útil, instrutivo. Pensem em escolas onde os professores sejam respeitados e não vivam no medo permanente de ser atacados pelos pais e pelos filhos, onde sejam avaliados pela maneira que ensinam e não pelo número de alunos que passam de ano. No clima de medo e insegurança em que se sentem, deve ser impossível ensinar. E os prejudicados são os miúdos, que não aprendem, perdem o gosto pelo estudo, deixam de respeitar os professores, não sabem distinguir o certo do errado.
Já escrevi mais do que queria e se calhar muita gente não está de acordo comigo.
Só para terminar, lembro aqui um pouquinho da "Balada da Neve" de Augusto Gil: "Mas as crianças senhor, porque lhes dás tanta dor, porque padecem assim?"
Até um dia destes
.

12 comentários:

Pico minha ilha disse...

Um abraço com carinho.Estou com pouco tempo mas tudo voltará ao normal.Beijinhos
Obrigada Maria

Maria disse...

Salomé:
Beijinho amiga.
Bom fim de semana.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mininininha Maria

Era proibido contar pelos dedos - quando eu entrei para a primeira classe. E a Dona Atília (isso mesmo, Atília), viúva embiocada em negro, quando o tentávamos fazer, brandia a menina dos cinco olhos...

... e era a escola Mouzinho da Silveira, ali na esquina da Avenida de Berna, passavam-lhe os eléctricos (abertos) na frente.

Na quarta da instrução primária - até as denominações se foram - a Dona Clélia, proprietária e Directora - que me tentou ensinar o Português, sem grandes resultados, pobre Senhora, aliás carinhosa e sem palmatoadas - se dávamos mais de cinco erros no ditado - à janela que dava para a rua, com um par de orelhas de burro em cartolina azul.

Na Raínha Santa, também dela, eram cor-de-rosa. A Mouzinho destinava-se aos candidatos a machões; a Santa albergava as juvenis fêmeas.

Hoje, os meus netos em escolas de misturas diversas, sabem alguma coisa porque os pais e, ia a dizer, sobretudo o avô, (lagarto, lagarto, lagarto, porque é do Sporting) lhes dão ensinadelas e este último lhes tenta dizer que, no msn, não é k axo, mas sim que acho.

Saudosismo? Realismo. Até depois, que se faz tarde.

Qjs (de Serpa) e abs para o Santo de pôr no alta, que também pode dar umas mordidelas, obviamente nos qjs

Maria disse...

Caro Henrique:
Durante os meus tempos da primária, a D. Lucínda primeiro, a D. Emília depois, tinham réguas e usavam-nas. Por acaso nunca lhes experimentei o peso. Era boa aluna, bem educada, só um pouquinho tagarela.
Fiz exame de admissão ao liceu e na prova oral, meu pai ouviu comentários que o deixaram babado. As bases eram muito boas. Professoras que sabiam ensinar e tinham autoridade, pais que em casa ensinavam regras de conduta, respeito e educação, davam achegas, aquilo que nos era ensinado na escola. A maior parte da História de Portugal que sei, foi-me ensinada pelo meu pai, passeando no Convento e outros monumentos espalhados pelas terras onde iamos. Cada pedra tinha uma história, cada sítio lembrava uma batalha ou outro facto.
Hoje os pais não têm tempo, os profs. não marcam erros, não castigam, porque não podem. E chegámos ao "Estado a que nós chegámos" como diria o Salgueiro Maia.
Remédio? Não sei se ainda terá ou se vem a tempo. Impera a Santa ignorância, o salve-se quem puder, a falta de respeito e mais algumas coisitas. Por outro lado, há os traumas, uma coisa de que nós não sofriamos, nem sabiamos o que era.
Se não apanhei das professoras, o meu pai molhava a sopa com frequência. Nunca lhe quis mal, não fiquei traumatizada e tenho pena de ele já cá não estar, mesmo que fosse para me chegar a roupa ao pelo, volta e meia.
Estamos fora do "contexto" como se diz agora. Não vale a pena lutar com moínhos de vento. O nosso Mundo acabou e temos que nos esforçar para tentar sobreviver neste, enquanto cá estamos, o que eu espero que seja por muitos e "bons anos.
Um abraço do João, beijinho para a Raquel e queijinhos para ti.

Osvaldo disse...

Olá Maria;

Quando eu entrei pra Escola...

Que belo livro dava este titulo!.

O professor Machado recebeu-nos um por um e olha que eramos muitos, porque naquele tempo, não havia televisão, o aborto ninguém conhecia, a pilula muito menos e era sempre a aviar e que beleza,... as Escolas estavam cheias e mais pareciamos um bando de pardais que corriamos, sacola às costas pela rampa que nos levava à Escola.
Acabamos a primeira classe e até ja sabiamos escrever o nosso nome e contáva-mos até ao infinito.
Acabamos a segunda e a taboada era uma bela canção de numeros de soma e subtrai, tipo o pião do rapa, tira, põe, deixa... eramos grandes.
Na terceira foi a Dona Conceição que tomou conta dos Indios e aprendemos gramatica e matemática de fazer iinveja a escritores e físicos... era sempre a aprender.
Depois lá veio a quarta classe... à a quarta, aquela que era a sério porque era a última do pimario e tinhaos que sair de la ou ppara sermos doutores ou.. trabalhadores.
Nesse ano pegamos a Dona Justa para os ajustes e foi tudo pro exame. Éramos mais de quarenta e ela, a Dona Justa jurou que iamos todos e fomos,... cismou que todos teriamos que passar e... passamos!...

Nós éramos o maiores, Português, História, Geografia, Ciências do Corpo Humano e outras matérias,... "não havia pai pra nós". E lá seguimos todos as nossas vidas porque tinhamos a "quarta-classe"...

Claro, uns ficaram por lá, outros continuaram até altos estudos mas certamente, ninguém se esqueceu da "Quarta-Classe"... nem do professor Machado, Dona Conceição e Dona Justa, grandes trabalhadores de homens e mulheres que lapidaram tais diamantes para o dia do amanhã!...

óh, se o ensino de hoje voltasse a ter a "Quarta-Classe"!...

Bjs, Maria, e agora vou dormir que daqui a pouco tenho que ir para o aeroporto...
Osvaldo

Maria disse...

Olá Osvaldo:

Ainda bem que há mais um a concordar comigo. Descreveste lindamente a nossa escola "Risonha e Franca".
Quem tinha a 4ª classe, era quase um senhor. Sabiamos tudo o que nos fazia falta para viver uma vida honrada e com algum saber.
Agora há doutores e engenheiros a quem se aplica a velha história da mulher que consulta o advogado e ficando mal esclarecida, pergunta-lhou-lhe: "olhe, o senhor é mesmo doutor ou foi alcunha que lhe prantaram?". Isto hoje pode-se aplicar a todos os formados ou quase todos.
Boa viagem, meu amigo.
Beijinhos para ti e Anita.

Laura disse...

Ó nina Maria, longe d emim discordar de tudo o que aqui escreveste, é que, é mesmo assim...tantas modernices, livros novos todos os anos, os pais podem, pensam eles, é preciso que muitos livros se vendam para ganharem todos os mais espertos, enfim...os meus levavam a mochila pesada até metia dó ver aquele peso todo nas costas de uma criança...
Ah, e a letra? qualquer sora caprichava para ensinar as crianças a te ruma boa letra, mas agora nem escrever sabem, é cada erro...valha-nos..jinhos.
Aprender? aprendem qualquer coisa, mas,d epois já se ensina d eoutra maneira..Olha, v~e se apanahs alguma criança que saiba fazer contas de multiplicar, dividir, sem maquina de calcular, ora v~e lá isso! Eu faço as contas todinhas e até tiro a prova dos nove, ah, se tiro,de cabeça, por ai fora, mas eles, nem todos, ou poucos mesmo o sabem fazer..a culpa? levar maquinetas para a escola para fazerem a multiplicação por eles, essa nem lembra ao diabo...enfim, é o que temos...Um beijinho e eu também sou do tempo das canetas de aparo, de molhar no tinteiro, dos mataborrões, ahhh que coisa gira, das folhas azuis dos exames, ah, tempos giros...Beijinhos a ti e estás melhorzita? laura.

Maria disse...

Nina Laurinha:
Tudo o que dizes é verdade e vai bater no mesmo ponto que eu foquei.
Pobres meninos de hoje! Têm máquinas, computadores, roupas e material de marca, mas de que lhes serve?
Alguém disse: "Cultura é o que fica depois de se esquecer tudo o que foi aprendido".
O que me aflige é que eles não têm nada para esquecer, porque nada aprendem.
Estou bem, só um pouco nervosa. Nada de novo. Acho que é o meu estado natural. Quando não tenho com que me ralar, arranjo.
Já passou.
E tu e as tuas caminhadas?
Beijinhos flor de linho.

Kim disse...

Já aqui disseram quase tudo, sinal que somos todos da mesma fornada.
Cada um com sua razão e também eu tenho muita saudade do "nosso" ensino.
A gente sabia as coisas na ponta da língua. Hoje, essa língua só serve para chamar nomes aos professores e faltar ao respeito aos pais.
Não sei de quem é a culpa, mas a emancipação e a "fartura de tudo" estarão no cerne da questão.
Bijinhos Petite Marie

Maria disse...

Kim:
Como sempre estamos de acordo. Eu já não sei muito bem se isto é bom ou mau.
Somos sempre os da mesma "fornada", como tu dizes, a concordar nestas coisas. O facto é, que a "Santa Ignorância" tomou conta do país e não vejo fazer nada para modificar isto.
Tu sabes que dar erros ortográficos, já nem sequer conta para as notas dos testes, nem de Português? A minha filha trabalha numa escola e tem-me contado coisas de deixar os cabelos em pé, a qualquer um.
Fazer o quê?
Beijinho.

Laura disse...

Por falar em ignorância, a minha amiga Fernandinha, tem um nino com 8 anos, anda na escola, claro, como faltou uma semana por estar doente, e bem doente, a professora que foi substituir a dele, por ir ter um bebé, escreveu um bilhete à mãe, a dizer que tinha de lá passar ou justificar a falta etc etc,mas, como diz a fernandinha...aquele bilhete em 3 linhas do caderno, tinha 6 erros, da professora, evidentemente...o meu claudio tem o 2º ano d auniversidade, parou não gostava do ambiente dizia ele...dá erros que mete impressão...tem um horror de letra que nunca fez por corrigir, credo...é assim...beijinhos meus..ah, podes mandar-me a tua morada por email? sapinhavieira@gmail.com o portugal mail tem muita confusão e os amigos queixam-se de que não recebem o que mando e o que me mandam volta para trás, ou aparece em carácteres chinocas, enfim... Um beijinho da tua flor de linho..laura..

Maria disse...

Laurinha:

Tu não me fales em erros que eu fico toda ouriçada. Agora é que eu percebi, porque é que as professoras não os marcam: Elas também são analfabetas (algumas, claro).
Eu estou a tentar brincar, mas este desensino, assusta-me bastante. E agora com o famigerado "acordo ortográfico" se calhar, piora.
Valha-nos São João Bosco, patrono dos estudantes.
Já te mandei o endereço.
Beijinho