domingo, 31 de maio de 2009

Um dia que não esqueço


Foi há muitos anos. Na mesma Igreja onde já tinha sido baptizada, onde ia à Missa quase todos os Domingos, onde entrava muitas vezes para ver os santinhos bonitos, desfiar umas orações, com uma fé cega, como desejava ainda sentir.” A minha Igreja”, como lhe continuo a chamar, a mesma que ainda hoje, é a minha primeira visita, quando vou a Tomar. São João Baptista, a minha Igreja, é linda, a mais linda Igreja do mundo, para mim, claro. Lá dentro volto a ser a mesma menina do retrato.
Hoje não vou contar nada. Está muito calor, estou cansada, não tenho vontade de escrever. Sorte a vossa, porque eu pedi ao Guerra Junqueiro uma poesia, que diz o que eu não sei dizer.

Minha mãe

Minha mãe, minha mãe! Ai que saudade imensa
do tempo em que ajoelhava, orando ao pé de ti.
Caia mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se, voando em torno dos seus lares,
suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
dormia quieto e manso o impávido lebreu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
e a lua branca, além, por entre as oliveiras,
como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu.
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço
vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço
eu balbuciava minha infantil oração,
pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
que mandasse um alívio a cada sofrimento,
que mandasse uma estrela a cada escuridão.

Guerra Junqueiro


E pronto ficamos assim. Bom dia de praia.
Até um dia destes.

14 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariamiga

Como julgo que sabes, já fui católico, mas... curei-me.

Porem, ao ver esta tua fotografia, lembreime de uma que minha Mãe tinha guardada em que eu estava em tais preparos, sem vestido branco e comprido, obviamente, mas de calções cinzento escuro e casaco de botões metálicos. Presumo que azul... E com lacinho branco em camisa branca.

Um dia, quando o Luís Carlos andava pelos seus oito anitos (este ano - com grande gozo dos dois mais velhos -, vai entrar na equipa dos entas) e quando a Avó lha mostrou, veio ter comigo e perguntou: Ó Pai, porque é que não me levou à sua primeira comunhão? Nem ao seu casamento?...

E prontos (sem s), fico-me por aqui. À praia não, pela razão simples de que, se por lá fosse, seriam tantAs atrás de mim que...

Qjs & abs (JoãoSão)

Maria disse...

Caro Henrique:
Não direi que me curei, mas melhorei muito. Ás vezes tenho pena.
Creio em alguma coisa maior que nós.
Respeito todas as religiões, mas seguir, não sigo nenhuma.
Sou católica por tradição, amo aquele Jesus que tudo deu por nós, mas há coisas na igreja católica que não entendo.
Naquele tempo era bem mais feliz. Tinha uma fé cega.
Quanto a fotos do casamento, não tenho. Casei civilmente. O meu vestido era azul e em vez de cauda atrás, empinava à frente. Donde, o meu filho mais velho assistiu ao meu casamento, quentinho, dentro da minha barriga.
Praia? Aquela coisa cheia de areia, bolas, dejectos de cãezinhos, ossos de frango? Não, amigo.
Vou passar a tarde a ajudar o São João a classificar fotos, aqui no possivel fresquinho da nossa sala de trabalho.
É que como diria o Eça "está um calor de ananazes".
Beijinho à linda Raquel, abraço do São João e queijinhos de Tomar.

girassol disse...

Eu fui baptizada na minha igreja, fiz a primeira comunhão e a profissão de fá e a crisma, casei e baptizei a minha filha. Bem antes de casar e depois baptizar a minha filha já havia percebido de quanta hipócrisia se fazia aquela instituição. Hoje, de há muito tempo, tenho fé mas de uma forma diferente. Acredito mas não no que me/nos matiam na cabeça naquela altura. Não sou católica. Encaro a vida de uma forma religiosa. A vida é o bem sagrado que devemos respeitar. A nossa e a do outro.

Mas estás muito bonita aqui nesta foto, Maria. Eu não tenho registo destes momentos. Tenho uma foto ao colo do meu pai, vestida de anjinho na procissão lá da terra. Vê lá tu se havia precisão de tal me haver sido feito?!...

E olha... sabes que te digo?!... fazes bem ficar no possível fresquinho da tua casa com o teu João a fazerem seja o que for. Neste calor "de ananazes" é o que apetece e deve ser. Mas sabes?!... praia gosto!... o ano todo menos nos dias de calor assim. Gosto de correr na praia, de andar, de molhar os pés... O mar faz-me bem mas não em dias de muita gente...

Obrigada pela poesia do Guerra Junqueiro.

Beijinho aqui de nós.
Maria Girassol

Maria disse...

Girassol:
Mais uma vez estamos de acordo, mas que tenho saudades da fé cega dessa tempo, tenho. Tudo era tão mais simples, sem dúvidas, nem revoltas.
Beijinhos e abraço daqui para aí.

Agulheta disse...

Olá Maria! Adorei a foto,estás linda como era nessa altura,realmente o deixar de acreditar na igreja,é a forma de eles lidarem,com quem tem necessidade do seu apoio! Só vejo riquezas na terra e pouca na alma de quem prega.
Beijinho

Maria disse...

Agulheta:
Obrigada pelo comentário simpático e um beijo.

Kim disse...

Claro que também eu tive uma foto destas, com um sorriso de orelha a orelha e uma vela na mão.
Eu não me curei nem deixei de me curar. Se o problema fosse apenas em acreditar ou não penso que ninguém acreditaria em Deus já que o lado científico para aí nos empurram. No entanto há coisas que se não vêem mas se sentem e enquanto eu as sentir vou continuar assim.
Estava muto bonita, esta Petite Marie!

Maria disse...

Kim:
Mais que bonita, a Maria estava muito feliz neste dia. Fora a melhor aluna da catequese, tinha o coração cheio de Fé.
Deus? Quem é que lá no fundo não acredita? Eu sinto que há qualquer coisa muito forte, que governa tudo. O que acontesse, é que às vezes acontecem coisas tão horrorosas, que eu não consigo acreditar que o Deus da minha infância, consinta nelas. Daí, as dúvidas e a negação. Mas quando alguma coisa me acontece, é para Ele, que me volto, é com a Fé doutros tempos, que me entrego à sua vontade.
Descrente, eu? Não sei, Kim. Quem me dera sabê-lo. Se sou, porque me emociono numa igreja, tenho imagens de santos, rezo o responso a Santo António, espero voltar a ver os meus mortos? Se não sou, porque me revolto e não sou capaz de aceitar tudo, como vontade de Deus?
É tão díficil entender! Quem me dera a fé pura e sincera da menina do retrato, ou as "certezas" do João.
Termino com o principio de uns versos da Florbela: "Queria encontrar Deus, tanto o procuro..."
Beijinhos.

Anónimo disse...

Maria, minha amiga,
Não posso dizer que tive uma educação religiosa primorosa. Tanto eu como a muinha irmã fomos baptizadas, mas ficámos pela primeira comunhão.
Mas a minha fé era inabalável, até me começar a interrogar sobre justo e o injusto, o certo e o errado, o bem e o mal...
E estive zangada com Ele, durante muito tempo (tempo demais).
Um dia li um livro que se chama "Ana e o Tio Deus" da editora Ulisseia (que já não existe), e percebi que "o Tio Deus não tem pontos de vista; vê pontos". E fiz as pazes com Ele (eu e o Doc).
Agora, depois de ter tentado compreender que Ele não tem nada a ver com o que me ensinaram (que não foi muito, é verdade!), mas que faz parte integrante de mim como eu d'Ele estou bem mais tranquila. Afinal, tal como te dizia na minha carta "sempre me disseram que sou poeira; o que se esqueceram de me dizer é que sou poeira das estrelas".
Desejo-te um dia feliz e tranquilo, e aqui vai beijo de saudades
Nemy

Anónimo disse...

Ah! Maria,
Esqueci-me de dizer uma coisa importantissíma que aprendi com a Ana do "Tio Deus":
"A diferença entre uma pessoa e um anjo é simples. A maior parte do anjo está por dentro e a maior parte da pessoa está por fora"
Beijinho
Nemy

Maria disse...

Nemy, minha doce Nemy:
Como a ti, houve um livro que me impressionou, só que em vez de me esclarecer, deixou-me ainda mais confusa. Chama-se "O drama de Jean Barois" de Roger Martin du Gard.
Com um pai que se dizia ateu e uma mãe com muita fé, vi-me (vejo-me) por vezes dividida, entre as certezas dela e as dúvidas dele. Mas Fé é coisa que não me falta.
Às vezes, lá vem a dúvida, a incerteza, mas logo o "Padre Nosso" (parece mentira, mas foi o meu pai quem mo ensinou), me lembra Jesus, o meu Jesus Menino, que nunca deixei de adorar.
Deus? Homem perfeito? que importa, se disse a frase que mais me infuencia: "Amai-vos uns aos outros". É isso que eu tento fazer: Amar, compreender, aceitar.
A tua última frase é linda:""A diferença entre uma pessoa e um anjo é simples. A maior parte do anjo está por dentro e a maior parte da pessoa está por fora"
Prometo lembrar-me dela, quando me lembrar de ti.
Beijinho, minha amiga e obrigada oir esta frase tão linda,

Anónimo disse...

Maria,
Tenho que esclarecer aqui que a frase não é da minha autoria. É da autoria de Fynn, o autor de "Ana e o Tio Deus".
Saudades
Nemy

O Bicho disse...

Maria,
um espanto, linda a imagem, a verdadeira inocência.
E outra coisa curiosa - se eu não soubesse, diria que foi esta a imagem que serviu de modelo ao meu desenho (Preto e Branco).

Maria disse...

Bicho:

Tens de me mostrar esse desenho.
Era inocência e Fé, amigo. Aquela que hoje me faz tanta falta.
Beijinho