domingo, 24 de maio de 2009

Morte na Picada


Já li muitos livros sobre a chamada Guerra no Ultramar.
É um tema do nosso tempo, que tocou de perto muitos de nós.
Concordando ou não, ela existiu e até há bem pouco tempo era Tabu falar dela. A pouco e pouco, alguns escritores foram tendo a coragem de a lembrar: Manuel Alegre, Carlos Vale Ferraz, João Aguiar, Lobo Antunes e agora Antunes Ferreira, em a “Morte na Picada”.
Sei que para algumas pessoas será difícil falar ou ler, sobre o tema.
Não é nada cómodo nem agradável saber o que se passou.
Mas devem compreender que, para quem lá esteve (alguns contrariados e revoltados por não aceitarem o que estavam a fazer) deve ser difícil, melhor dizendo, doloroso, conseguirem contar parte do que viram e viveram.
Não tenho procuração de ninguém para falar assim. A parte que vivi dessa guerra foi pequena, mas marcou-me. Perdi alguns amigos, vi outros voltarem doentes de corpo e espírito. Foi por pouco, muito pouco, que o meu marido lá não foi parar.
Henrique Antunes Ferreira vai fazer uma conferência sobre “Morte na Picada”. É mais uma prova de coragem, de alguém que esteve numa guerra estúpida, que ninguém queria, mas aguentámos cerca de 15 anos. Ele vai falar do livro, o livro fala dessa guerra.
É tempo de deixar de tapar a cabeça e fingir que nada aconteceu.
Ninguém teve influência, nem responsabilidade no que escrevi. É toda minha.
Até um dia destes.

15 comentários:

Alfredo M B Caiano Silvestre disse...

Cara Maria.

Se ainda não é o tempo de fazer a história dessa guerra, é sem dúvida tempo de ler o testemunho quer dos que a fizeram quer dos que se recusaram a fazê-la, dos do lado de cá e dos do lado de lá, se é que havia o lado de cá e o lado de lá.

Beijo.

Maria disse...

Caro Alfredo:
Antunes Ferreira chama-lhe:"Guerra Civil" visto os que nela se baterem serem irmãos desavindos.
Quanto a ainda não ser tempo de fazer a História dela: Quando será? Depois de terem morrido todos os que dela fizeram parte e ninguém souber nada do que se passou? É assim que se fazem todas as hitórias.
O que não é justo, é "crucificarem-se" os que lá estiveram de um e outro lado, a maior parte sem saber bem porquê. Como de costume é fácil lavar as mãos, esconder a cabeça na areia e ignorar.
Para mim, não.
Foi uma guerra estúpida, inútil, que eu nunca aceitei. Mas existiu.
É tempo de que se saiba, que os homens que lá estiveram têm a mesma culpa do que aqueles que do lado de lá. Que se saiba de uma vez que os culpados estavam, cómodamente em Lisboa e que os outros, dos dois lados, eram meros paus mandados, às ordens de alguns que ganhavam com tudo aquilo.
Desculpe ter-me alongado, mas é um tema que me faz mal.
Obrigada pelo seu comentário.
Beijo

Kim disse...

É um tema que também me toca. Relembrá-lo é obrigatório.
Se o Henrique for tão bom orador como é escritor faz-se o pleno.
Tenho uma hora para lá estar, já que outra actividade mundana me aguarda logo a seguir, mas fá-lo-ei com muito gosto pois já há muito pensava comprar o livro.
Lá te espero Maria!
Inté (onde é que eu já ouvi isto?)

Maria disse...

Kim:
Ainda bem que lá vais estar. É a maneira de te ver. Fico duplamente contente.
Sim, é um tema a falar, mas parece assustar toda a gente. É como todos se sentissem culpados de uma coisa que a todos prejudicou, de uma ou outra forma.
É mais que tempo de se quebrar o "mistério". Acho que já passou tempo demais. Abra-se o jogo de uma vez.
Já que não se pode dar vida aos mortos dos dois lados, nem inverter a História, faça-se justiça aos vivos. Aos que lá estiveram e aos que tiveram possibilidade de não estar, às mães, mulheres e filhos, que ficaram sem eles ou ficaram com o que deles restou.
Desculpa, Kim. Eu assisti de uma forma muito viva, embora longe, todo o drama.
Houve uma altura em que fui muitas vezes, a um local onde estavam depositados restos humanos vivos. Falei muito com um capitão sem pernas, com um braço aleijado. Nunca lhe soube o nome, mas ouvi-lhe histórias de deixar qualquer um, de rastos. D'aí o meu interesse quase doentio, pelo assunto.
Beijo

Laura disse...

Bom, sorte para o henrique e para o seu livro, dessa guerra sei tudo de cor, os militares amigos que lá tinha, alguns nem regressaram, mas, os que voltaram, contaram-me bem o horror, além disso fui para lá no inicio de 62, a guerra começou em 61, assim... Cada um a vê à sua maneira, cada um conta como sabe...mas, apenas os que lá ficaram, enterrados, poderiam dizer de si, e como aquela guerra foi a guerra mais estúpida onde Portugal alguma vez se meteu, nem que fosse para nos salvar, só que acima disso tudo, estavam os interesses dos outros, mas, adiante... O que está feito, está feito, e nada fará regressar os mortos, a casa!...
Laura.

Maria disse...

Laurinha:
Os mortos não voltam, mas os que sobreviveram, ainda hoje sofrem fisica e moralmente com essa guerra estúpida e inútil.
O vosso ponto de vista (que eu respeito e aceito) não pode ser o mesmo dos que lá estiveram ou das suas familias. Todos fomos afectados de uma forma ou outra, nina. Toda a nossa geração ficou marcada.
Não vale a pena discutirmos o assunto. O vosso ponto de vista é respeitável, o nosso também. Isto não impede de sermos amigos, nem deve afastar-nos. A dor deve unir, não separar.
Não vamos fazer dissto ponto de discórdia. Há entre nós tanta coisa em comum, flor de linho!
Esqueçamos de vez tudo isto.
Gosto muito de ti e não vai ser uma coisa passada há anos que nos vai fazer perder uma amizade bonita.
Falar de guerra contigo nunca mais.
Há tanta coisa linda para falar! Os filhos, a tua heróica recuperação, os teus lindos poemas, as tuas conquistas, as músicas que tens dentro de ti.
E a ternura que sinto por ti, minha flor de linho.
O presente é que importa, nina.
E a amizade sempre constante, desta Maria, para quem és muito especial.
Beijinho muito amigo a ti.

Laura disse...

Maria, eu estive lá e falei com quem de lá nunca voltou, quem por lá ficou, um, era um moço que me amava, se fores aos começos do meu blogue, verás lá um poema, Ao Luis, o rapaz do anel... rapaz que me amou, amou sem fraquejar, quando eu o detestava, amou mesmo assim, sofrendo, percorrendo caminhos de dor, eu tinha apenas 14 15 anitos, por ai, a senhora onde eu aprendia costura, tudo lhe facilitava, e, da janela junto ao jardim, falavamos, mas eu não sabia falar de amor porque por ele não o sentia...escrevia-me centenas de cartinhas lindas (oh, porque não as guardei eu!)ofereceu-me um anel, que meti na gaveta da máquina, porque, adorava o anel, mas não o rapaz... pediu-me que fosse Madrinha d eguerra, e fui, fui porque me sentia bem a escrever, a contar os nossos dias, e um dia, não voltou, era rádio telegrafista e o unimog onde seguia, ele e mais 8, foi tudo ao ar, morreram todos...chorei sim amorte do amigo, mas, já tinhamos falado nas condições degradates de uma guerra sem fim à vista, apenas para manter o poderio de alguns senhores...
Como ele tive mais militares apaixonados, e, escreviam, falavamos, e contavam os detalhes, como faziam quando morria algum, onde os enfiavam para que o corpo não apodrecesse, até chegarem pela mata, picadas sem fim, para os ir buscar...enquanto os senhores da guerra, ficavam na cidade, na praia, nos bailes, nas festas, ah Maria, maria, aqui não há espaço para discussão...Quem lá esteve e viveu para contar, as dores, a aflição, a saudade da familia, mesmo da casita pobre da aldeia, era preferivel a estarem onde estavam...
A maioria dos que vivem aqui, apena souviram falar, eu andei nas colunas do exército, senti o medo na pele, na alma, vivi na mata ond emorriam soldados, enfim...claro que entre nós não haverá nunca discussões, seria impensável que um livro despoletasse isso, mas...Nunca comprei um livro que fale da guerra de Angola, porque cada um viu a guerra à sua maneira...e eu, não fui soldado, nem nunca quereria ser...porque enquanto houver soldados; é facto de que haverá outras guerras, e, como mãe; detesto-as, como mulher; detesto-as, como ser humano; abomino-as!...Porque eu vivo para semear o amor e não a guerra!...
Um beijinho da laura.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariamiga

Uma só palavra: obrigado.

Espero por todos, depois de amanhã, para vos conhecer pessoalmente - e me aturarem de viva voz. Podem chegar pelas 04:27 56 seg e 03 décimos para podermos conversar e eu contar umas anedotas.

Até já

Qjs & abs para o João, o São

Maria disse...

Caro Henrique:
Vou fazer o possivel por ir cedo.
É dia de limpezas, tenho cá a empregada, mas vou ver se a avio.
Lá vou eu limpar o pó outra vez. Não confio na delicadeza das mãos dela, para tocar nas minhas adoradas lembranças.
Queijinhos

girassol disse...

No tempo dela, todos lidámos de mais ou menos perto com quem foi e voltou da guerra, com quem foi e com quem ficou à espera de quem não voltou. Quer dizer, voltavam quantas vezes em caixões os supostos corpos aos quais se fazia o funeral deixando a família e amigos em maior paz de espírito. Os corpos por vezes ficavam reduzidos e limitados em lugares de que não se sabia. Mas ficavam em depósito de vidas perdidas de qualquer jeito. Alguns, antes mortos realmente. Chegaram a aparecer alguns dos dados como mortos.
Todos sabemos também que ainda hoje por aí andam alguns dos que sobreviveram. Alguns mais mortos que vivos. Digo de capacidades mentais, por exemplo. Conheço alguns não poucos que carregam eles e os familiares de perto todo o peso que trouxeram dessa guerra. Como se calhar de qualquer outra, se outra fosse. Mas é desta que falamos.

Gostaria de estar presente para ouvir a palestra do Antunes Ferreira mas não conseguimos. Hei-de saber notícias por ti ou pelo próprio AFerreira. Acontecerão outras oportunidades. Dessa perco tudo. A palestra e o encontro.

Beijinho e abraço para ti e para o teu João (já não lhe chamo motorista, não está certo).

No evento dás por mim um abraço ao Antunes Ferreira, outro ao Kim... e a quem mais se encontrar desta roda de gente que por aqui nos vamos encontrando.

Maria disse...

Girassol:
Estamos perfeitamente de acordo. Também perdi amigos, vi outros voltar estropiados fisica e mentalmente, revoltei-me com aquela estupidez toda, que só beneficiou meia dúzia e prejudicou uma data de gente. Nós e os outros. Foi uma das épocas mais tristes da minha vida. Tive a sorte de o meu marido não ter ido lá parar. Se isso acontecesse, creio que com a sensibilidade dele, ou não voltava, ou vinha transformado num destroço como outros voltaram. Tive pressa de me casar, para se ele fosse, ir com ele. Se assim tivesse sido, muito provavelmente, também eu não seria como sou. Tenho horror à violência e medo muito medo de guerras. Safamo-nos ambos. Mais uma coisa a juntar às coisas boas que a vida me deu.
Darei o teu recado ao Henrique.
Depois conto-te o que lá se passar e quem estava dos nossos amigos.
Beijinho e até logo

Maria disse...

Girassol:
Fui à palestra, dei o teu recado, conheci o Kim (é tal qual eu pensava).
A palestra foi muito interessante, aprendi muitas coisas e o Henrique é uma simpatia, além de bom falador e ter uma cultura enorme.
Estava a mulher dele, que é linda e simpática. Terias gostado de ir.
Beijinhos

girassol disse...

Maria muito obrigada. Havemos de conseguir estar todos juntos um dia destes. Acredito!... Bom teres gostado. Já se adivinhava o orador com essas características todas. Bom conversador, com certeza...

Beijinho para vocês dois, tu e o teu João.

Anónimo disse...

Amiga Maria, considero este tema dos mais sérios traumas do povo português, sem com isso nos esquecermos do rasto que deixámos como colonialistas.
Também fui dos que vivia nos brandos costumes e quando em Tete "Moçambique" vi o que me rodeava, a minha mente ficou mais atenta aos pormenores.
Pior do que sermos atirados para ali, é ainda hoje nesta sociedade hipócrita,que não reconheceram ainda que na maioria dos sem abrigo, que proliferam em todo o país, a maior parte foram pessoas, que não mais se conseguiram empinar devido ao desgaste psicológico,por algo que não defendiam, que tiveram de assistir e participar em actos que não mais se apagam das suas memórias.
Gostei muito de estar presente e ouvir o H. Ferreira Que considero uma autoridade pelo seu percurso e eloquência.
Acho que é um acto de justiça para com todos os que, deste assunto já não podem falar.
Os fantasmas dos portugueses só se tranquilizarão quando falarmos com eles, é esta a terapia para surgirem melhores gerações.
Beijinho Maria

Anónimo disse...

Desculpa Maria por não ter assinado não era minha intenção
jrom