domingo, 18 de setembro de 2011

Uma luzinha no telhado


Na esquina da minha rua há uma casa normal, igual a todas.
Quando vou fumar o cigarro da noite, olho o telhado da casa e vejo uma luzinha brilhante, viva, que me faz voltar atrás nos anos.
Lembra-me a casa em que morei no Porto. Tinha um quarto no sótão, com uma janela no telhado. Dormi lá muitas vezes. Quando a casa se enchia de gente, a minha avó dormia no meu quarto e eu e a minha prima Margarida íamos dormir para lá. Sentiamos-nos independentes, senhoras do nosso cantinho, onde, longe de todos, podíamos fumar, conversar, sonhar com a nossa ida para Paris, viver numa mansarda e fazer sei lá o quê. Em sonhos consegue-se tudo. Ouvíamos Brel, Aznavour, Brassens, Piaf. Falávamos em francês para treinar. Chorávamos lendo “Bonjour Tristesse” de Françoise Sagan. Ai Margarida que partiste ! Não tivemos mansarda em Paris, não nos perdemos pelas suas ruas e praças, não vimos os bateaux-mouche no Sena. Quando lá fui, pensei tanto em ti, minha querida Margot. Lembras-te? Era o teu nome na mansarda de casa dos meus pais. Até o nome mudámos. Moi, Claire, toi, Margot.
Olho aquela luzinha e não consigo deixar de imaginar. Quem lá mora? Duas meninas tontas e sonhadoras como nós? Um idoso que arfa ao subir a escada e não consegue dormir? Uma pobre família, com filhos pequenos? Quem? Olho a luz e, fico à espera de saber quem é. Já pensei perguntar a algum vizinho. Não.
Não quero saber. Eu ainda gosto de sonhar. A realidade pode não ter nada de bonito. O sonho pode tornar-se pesadelo. Vou continuar a olhar a luzinha no telhado e pensar em mais ideias. Ela está lá e faz-me companhia nas noites em que acordo sem sono. Quando vou dormir, posso dizer: Boa noite luzinha no telhado.
Até um dia destes.

13 comentários:

Alva disse...

Olá Maria

Com o teu título "Uma luzinha no telhado" lembraste-me um filme muito engraçado: Um violino no telhado, de 1971.

Imagina que a luz que vês do teu telhado é do quarto de um menino que, como todas as crianças, sonha. Tem a luz ligada porque exactamente a essa hora fala com a sua estrela... a Estrela-Maior.
O que este menino não sabe é que todas as noites há alguém que vendo o seu brilho sonha como ele...

Nunca deixes de sonhar Maria, é o "sonho que comanda a vida" e "quando um Homem sonha o mundo pula e avança"! =)

Já fiquei inspirada para uma reabertura do meu blogue. Obrigada!

Beijinhos, mil,
Da tua Pequenina

Maria disse...

Olá Pequenina
A luzinha ainda lá está. Talvez lá esteja uma Pequenina que nunca vi.
Acho que vou sonhar até ao fim. É a forma de fugir da realidade que, nem sempre me agrada. Sonhar é bom. Posso ter tudo, por momentos. Posso ser jovem de novo, regressar ao passado, pensar no futuro sem medo.
Ainda bem que pensas voltar. Fazes-me muita falta.
Beijinhos, minha amiguinha. Até breve!?
Maria

vasco disse...

Se é a casa que estou a pensar, no andar imediatamente abaixo, na janela que se vê, era frequente vê-la cheia de luz, às vezes bem pela noite dentro, quando morava aí em casa.
Dava-me impressão que era alguém que passava as noites ao computador, mas não tenho a certeza.

Mas, realmente, nos difíceis tempos que atravessamos, pode ser algo mais dramático.


Beijinhos.

Maria disse...

Filho
A casa é essa, sim.
Cada um pensa o que lhe apetece. Tu "vias" alguém no computador. Eu lembro-me lá de máquinas!...
Sonho, imagino.
Beijinhos
Mãe

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariamiga

Oxalá todos tivéssemos em frente de nós uma luzinha num telhado.

Estória linda, de encantar, que me deixa com uma vontade louca de que assim aconteça. Corrijo: em vez de me devia ter escrito nos. Já tá.

Prontos (sem s) continuas a encher-me as medidas. Volto a estar cheio de inveja: quando for grande quero ser como ti (?)

3abçs e qjs para tu (?)

PS (Isto éke vai uma vida...) - Amanhã, mando-te uma fatia de bolo, por imeile.

Maria disse...

Henriquamigo
Sabes? Sou cusca à minha maneira. Nunca me interessei pela vida dos outros mas, às vezes, uma simples luzinha no telhado, mexe com a minha imaginação. Deformação provocada por tanto livro lido e relido. Uma imaginação que não esmorece com a idade e, a necessidade de ouvir e contar histórias.
Obrigada pelo bolo.
Amanhã mando~te um imilio de Parabéns.
Até amanhã.
Abrçs dos homens, beijinho para a Raquel e uma rodela de ananás, dos Açores, claro.
Maria

Je Vois La Vie en Vert disse...

Com a imaginação até uma mansarda é um palácio e um luzinha pode contar histórias encantadoras.

Je t'envoie un bouquet de bisous, chère Claire !

La Petite Verte qui va s'absenter pendant 10 jours...

Maria disse...

Verdinha querida
Obrigada pelas tuas palavras.
Claire sem Margot, não vive já. Ficou a Petite Marie que o Kim baptizou.
Tens toda a razão. Pode-se imaginar e sonhar tudo, em qualquer lugar.
Vou sentir saudades estes 10 dias.
Volta bem.
Abraço grande
Maria

Kim disse...

Às vezes - essa luzinha, lá longe, ilumina-nos o caminho da mente. Logo esse que tanto tem de obscuro e sombrio.
Continua a olhar para o horizonte e quando os teus olhos já nada enxergarem, eleva-os um pouco mais e descobrirás uma nova luz.
Beijinho grande Petite Marie

Maria disse...

Kim
Há sempre uma luzinha para os sonhadores. Não gosto do crepúsculo mas, adoro a noite, as estrelas, a calma das ruas desertas. E no entanto, a noite esconde muita coisa má e feia. Mas é dela que gosto. É de noite que as ideias ficam claras, nítidas.
Hei-de ver sempre uma luzinha, nem que seja só, com os olhos da alma.
Beijinho
Petite Marie

Laura disse...

Olá Petit Marie, o que uma luzinha na noite pode fazer, os sonhos que não te trás, as ideias, enfim, faz trabalhar a mente e levou-te ao tempo da tua prima Margot, o tempo dos sonhos em que fazemos a vida acontecer. Bendita luzinha que nos trouxe tão deliciosa escrita e luz, tanta luz! é que esta sagitariana aqui, também imagina quem mora aqui ou ali, quando passa pelas ruas e vê casas e mais casas, e tenta imaginar o cenário à sua maneira.

Beijinhos da flor de linho.

laura

Maria disse...

Flor de linho
Também sou sagitariana. Até que ponto isso tem poder nas nossas mentes, não sei. Sei, que sonho muito de olhos bem abertos.
É bom sonhar mas, com os pés bem presos à terra.
Continua a sonhar que, eu farei o mesmo. A vida sem um pouquinho de sonho, não é nada.
Beijinhos
Maria

Um Jeito Manso disse...

Já li este post várias vezes. Tocante.