terça-feira, 24 de março de 2009

Quem vem e atravessa o rio...


No sábado, a neblina, aquela neblina tão tripeira, não deixava ver muito. Além das pontes, as três mais velhas e bem minhas conhecidas e as novas, bonitas, mas que me dizem pouco, quase nada se via. O velho casario esbatido pela névoa, ruas que não conheço, caminhos que não sei para onde vão. É o progresso, esse mal necessário, a matar as lembranças boas e más, de uma terra onde vivi treze anos. Se fui feliz lá? Houve tempos felizes, tempos péssimos. Nasceram-me lá os dois filhos. Isso foi a parte boa. A minha mãe, desde que para lá fomos, nunca mais teve saúde. Não foi culpa da terra, eu sei. Mas marcou-me, tornou a minha mocidade uma época triste.
Talvez não fosse só o tempo que estava nublado. Os meus olhos também estavam.
Até um dia destes.

8 comentários:

Kim disse...

Minha petite Marie! Não me digas que foi junto à Serra do Pilar. É que, às vezes - a neblina aparece propositadamente para turvar a visão que temos do passado.
O futuro chama por ti. Por nós, Ainda vamos ser uns jovens traquinas ansiando por férias, uma garrafa de Porto, dois cálices e muita juventude´.
Já sentia a tua falta.
Beijinhos

carla mar disse...

Viemos os 4 cantar uma canção, para ti, querida Maria :)


Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
erigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

[refrão]
Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa


Porto Sentido - Rui Veloso



Sentimos a tua falta, Maria!
Beijinhos dos 4 :)

Anónimo disse...

UM POEMA

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

Miguel Torga


Saudades e um beijo amigo
Nemy

Maria disse...

Kim:
Foi junto à Serra do Pilar.
Hoje ainda por cima, faz anos que a minha Mãe morreu. Tenho de ir ao cemitério, sítio de que não gosto nada. Mas Ela gostava de flores e não quero deixar sem algumas.
Beijinhos

Maria disse...

Obrigada aos 4. Foi bom, ler a poesia e lembrar a música. Amanhã vou ouvir o CD.
Hoje é dia de ouvir Chopin, a música que minha mãe adorava e tocava para mim, ao piano. "Nocturnos", para um dia triste.
Beijos para os 4

Maria disse...

Nemy:
Obrigada por teres lembrado Torga, o meu Torga. Leio os poemas dele, como se fosse a primeira vez, embora saiba alguns de cor.
Beijo e saudades.

carla mar disse...

Um beijinho. solidário.
Hoje quero-te valente.
(estou. onde tu precisares, minha amiga.).

Beijinhos dos 4.

Maria disse...

Carlinha:
Podes ver no post de hoje, como passei uma parte da tarde. Podem-me chamar saudosista, mórbida, o que quiserem. Não me importo. Fiquei aliviada, por ter limpo, mudado tapete, colcha, jarras. Soube-me bem, sentir o peso da urna, nos meus braços. A dor, essa, vai ser eterna e sempre igual. Mas tenho de continuar a viver.
Beijos, amiga