quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Miguel Torga


Ontem, por razões alheias à minha vontade, não assinalei a data de nascimento do meu escritor mais querido.
Adolfo Correia da Rocha nasceu em São Martinho de Anta, em 12 de Agosto de 1907.
Vindo de família pobre, cursou o Seminário que cedo deixou, rumou ao Brasil, onde viveu alguns anos com um tio, que lhe patrocinou, primeiro no Brasil e depois em Coimbra, parte do curso de Medicina. A certa altura, como ele já publicava livros e colaborava em revistas, retirou-lhe a ajuda e ele viu-se obrigado a pagar estudos e viver com o seu trabalho. Formado, exerceu clínica em vários locais, nomeadamente em Leiria, onde acabaria por ser preso pela Pide. Desafecto ao regime, a sua vida não foi fácil.
Tinha adoptado, como escritor, o nome Miguel, homenagem a Cervantes e Unamuno, Torga, como a urze do seu Douro amado, que uma vez presa à terra não a larga mais.
De Miguel Torga já muita gente falou. Pessoas que o conheceram, que o estudaram.
Eu apenas posso falar do que ele é para mim: O homem que merecia o Nobel e nunca o recebeu. O homem que nunca se enfeudou a nenhum partido político, porque quis ser coerente até ao fim. Para ele, apenas Portugal e a Ibéria contavam.
É com um poema de “Poemas Ibéricos” que termino.

Terra
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais
Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...
Terra de pão e vinho
(A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).
Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e a Espanha
E a loucura com asas do seu povo

Torga, 1984

Até um dia destes e façam o favor de ser felizes.

18 comentários:

Kim disse...

Maria, daqueles que amamos podemos falar em qualquer altura. É certo que efeméride é efeméride, mas quando as raízes se agarram à terra e nunca mais a largam, temos a certeza que todos os Torgas ficarão para sempre entranhados em nossos corações.
Beijos Petite Marie!

Maria disse...

Kim,

No Natal dos meus 15 anos, o meu irmão deu-me o meu primeiro Torga:
"Novos contos da Montanha". Logo nessa noite, enquanto todos dormiam, li-o do prícipio ao fim. A partir daí, foi um a amor, uma empatia tão grandes, que os tenho todos. Uns dados pelo meu irmão, grande conhecedor e estudioso, do escritor, outros dados pelo João e pelos filhos. Leio-o e torno a lê-lo e, há sempre alguma coisa nova, algum ensinamento novo. Às vezes, quando não consigo dormir, vou buscar um, sobretudo a "Criação do Mundo" e sigo toda a vida dele, como se o tivesse conhecido pessoalmente.
Ao ler os "Bichos", volto a ser a Petite Marie, doida por animais e suas histórias.
Beijinhos!

Estrela d'Alva disse...

Maria,

Já li algumas coisas dele...
Gosto, mas não é o meu preferido!
Fazes bem em festejar esta data tão importante!!

Beijinhos, enormes =)
Estrela d'Alva

Maria disse...

Estrelinha,

Continua a ler. Torga precisa de treino. Não é um escritor fácil, mas é muito bom.
Beijinhos pequenina.

pico minha ilha disse...

Oi Maria, por aqui difícil de ler Torga e outros autores.Na biblioteca já encontrei Florbela Espanca, tenho de lá voltar, a ver se encontro mais alguns.Beijinho grande Maria
ps Estou bem

laura disse...

Um poema, uma ode uma sátira,de tudo ele tem, desbravando matagais nos anais da leitura... Pouco o conheci,de ler, mas o pouco que li, mostrou-me que os bons escritores, poetas...andaram por aqui e eram da nossa terra...
Beijinhos Maria. O meu dia foi mais que cheio de trabalheira, ufa, agora acabado a visita aos blogues é que vou descansar..laura

Je Vois la Vie en Vert disse...

Também confesso que nunca li o Torga.
Será provavelmente muito dificil para a minha cabecinha loira e estrangeira... ;-)

Beijinhos

Verdinha

Corvo disse...

Mãe,

De todos os escritores, que já li alguma coisa - e como já deves saber - ponho em cima da pirâmide dois: Torga e Camilo.
São os dois fáceis de ler. Quando leio um deles, chego a estar já cheio de sono, mas penso: "deixa ver como acaba o capítulo"; chego ao fim deste, e sinto curiosidade em saber o que vai acontecer a seguir. Nas pausas, por vezes, lembro-me da história, e até já tenho sonhado.

Beijos paraa ti, e um ramo de urzes para o Torga.

Maria disse...

Salomé,

Foi bom saber que estás bem.
Torga é um grande escritor e un grande homem. Escreveu livros lindos, histórias da sua vida e de outras vidas. É, talvez pela sua grande independência, pouco divulgado e muitas vezes injustiçado. Procura lê-lo. Acho que vais gostar muito.
Beijinho grande.

Maria disse...

Laurinha,

Isto por cá também anda um bocado baralhado. Tenho que ir comprar um "rato", porque este, ou morreu ou entrou em greve e eu não tenho prática de usar o dedo. Por isso ando calona. Vou ver se resolvo isto hoje. Assim irrita-me.
Beijinhos

Maria disse...

Querida Verdinha:
Loira e estrangeira, acredito. Mas muito inteligente e sensivel, da massa que se fazem os leitores de Torga. Lendo-o, ficarás a saber muita coisa sobre este país, que também é teu. Começa pelos "Contos da Montanha", "Os novos contos da Montanha", "A Vindima", "Os Bichos".
Depois pega na "Criação do Mundo". São 6 volumes, onde está toda a história dele e não só. É ficar a saber quem foi Torga, o meu Torga e todas as memórias de um Portugal de há mais de 90 anos.
Além disso, ler Torga, ensiná-nos um português simples e correcto, sem acordos ortográficos, mostra-nos um povo bom e sofredor, valente e maltratado, acolhedor e sensível.
Para mim, Torga é o Portugal velho, que ainda conheci.
Beijinho, amiga loira, portuguesa e culta.

Maria disse...

Meu Corvo:

Lembras-te da torga que está na cabeceira da sua humilde campa rasa? E do negrilho que lhe dá sombra?
Levásmo-lhe um ramo de urzes da sua terra. Fomos a Galafura e vimos o seu amado Douro em todo o explendor.
Sabes que amo o Douro. Aprendi a amá-lo com Torga.
Foi o teu padrinho quem mo apresentou há 49 anos. Desde então que dura esta ternura e damiração por ele.
Beijinhos e continua a ler Torga, Camilo, mas não só. Se há coisa que Portugal tem, são escritores.
Bons escritores.
Mãe

Corvo disse...

Pois foi: fomos a São Martinho de Anta, colocar-lhe umas urzes selvagens na sua modesta campa.

Quando fomos a Galafura, bem procurei, mas não vi, nem estação, nem combóio, nem linha nenhuma.

A escrita dele, é baseada em factos verídicos, mas também tem uns floreados de imaginação, que condimentam as suas histórias.

Maria disse...

Meu Corvo:

"Quem conta um conto, acrescenta um ponto".
Mesmo nós, tristes mortais, temos a tendencia de acrescentar, uns pózinhos por nós, tentando que a história verdadeira, se torne mais engraçada ou mais trágica.
Torga, aproveitou muita coisa que viveu, Camilo, o teu Vergílio Ferreira, Fernando Namora, o fizeram. Mas se todos podemos contar uma história, outros sabem contá-la. Têm o dom de prender a atenção, porque escrevem bem, em português escorreito e claro. E sabem fazer de factos banais, um romance, uma novela.
Tenho andado a ler uma extensa entrevista a Morávia, italiano que o teu avô muito apreciava. Tenho aprendido algumas coisas com ele,
tenho percebido, que às vezes aquilo que nos pareceu simples, dá uma trabalheira ao escritor, até conseguir essa aparente simplicidade.
Já botei faladura a mais.
Beijinhos
Mãe

Anónimo disse...

Querida Maria,

Como tu sabes falar de Torga. Eu não sei... só sei ler e sentir.

Por isso deixo um link pAra quem quiser ouvir ALGUÉM MUITO GRANDE declamar ALGUÉM MUITO GRANDE.

http://www.youtube.com/watch?v=l2kd_l7VVS4

Beijinho de saudades
Nemy

Laurinha um beijo carinhoso para ti.

Maria disse...

Nemy:
Obrigada amiga pelo endreço.
Villaret e Torga são um duo imbatível.
A "Ode à Poesia" é um dos meus poemas preferidos.
Falar em preferidos e Torga, é quase impossível para mim. Acho que tudo o que escreveu é bom. Claro que há algumas coisas que me dizem mais.
Beijinhos, minha querida e mais uma vez obrigada.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariazitamiga

No meio da confusão em que tenho vivido há dois ou três dias - nem vim aqui.

Venho agora, só para te dizer que conheci o nosso Torga, falei com ele largas, estive na sua casa, onde conheci a Cabrée. Homem dum cabrão!!!

Abs joaninos e qjs para tu

Maria disse...

Henriquamigo:

Não conheci Torga pessoalmente, mas do muito que o tenho lido e relido, sinto que o conheci.
A mulher vi-a no dia da inauguração da rua com o nome dele, aqui em Lisboa. Cheguei à conclusão, que nem sempre por trás de um grande homem, está uma grande mulher. Ela era pequenina, frágil, mas enorme por dentro e uma grande companheira. Só o que sofreu por ele, o prova.
Abraço do João, beijinho para a Raquel, queijinhos para ti.