segunda-feira, 22 de agosto de 2011

David Mourão Ferreira e de novo Amália

Parece que todos os poetas vão dar a Amália. Quem melhor, para transmitir os seus sentimentos?
Com música de Alan Oulman, o francês que deu volta ao fado e poema de David Mourão Ferreira, o "Abandono" ou "Fado de Peniche", na Voz do Fado.



Como podem ver, trata-se de um ensaio onde há pequenos enganos. Para que leiam o poema em toda a sua beleza, cá vai ele:


Abandono

Amália
(David Mourão-Ferreira / Alan Oulman)

Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.

Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.

Apreciem, vale a pena.

Até um dia destes

Maria



18 comentários:

Kim disse...

Foi Amália que me fez gostar de fado.
Lembro-me de "gozar" com a minha mãe e com uma das minhas irmãs, porque elas eram "vidradas" em Amália e eu apenas gostava de música moderna.
Hoje apenas sei que cada vez gosto mais da música que não gostava.
Amália e David Mourão Ferreira - a simbiose perfeita.
Muito bonito o poema e muito triste a música (como eu gosto).
Beijinhos Petite Marie

Maria disse...

Kim
Todos começamos por odiar o fado.
Depois, com o andar dos anos, começa a dizer-nos muito.
Alain Oulman fez muito para isso. Comecei a amar o fado, com poemas como este, musicados por ele.
Francês, nascido em Lisboa, sentiu o fado como poucos.
A gravação não é perfeita mas, escolhi-a por ser ele a tocar piano.
Beijinho da Petite que, está triste. O meu Nabão está doente e, como está muito velhinho, tenho tanto medo que, nem como, nem durmo.
Maria

Alva disse...

Olá Maria,

Como te disse no último post admiro bastante a Amália, como fadista e como pessoa. Quem me dera que vozes como a dela fossem imortais...

Estás triste? Então em jeito de remédio, como se Amália pura e simplesmente curasse todos os nossos males com a sua voz sublime, partilho contigo uma música que penso que te animará. Pelo menos comigo resulta!
Cá vai: "Amália - O Cochicho" - http://www.youtube.com/watch?v=Sr1k51Z-HEU&playnext=1&list=PL1D2293A3E28FE706

Comecei a gostar de fado com a Ana Moura... a partir daí e praticamente ao mesmo tempo vieram fadistas modernas como Raquel Tavares, Carminho e depois a grande Amália.

Por fim, gostava de te pedir uma coisa: Que lesses "A defesa do poeta" de Natália Correia e, se gostares, que publicasses...

Muitos beijinhos para ti,
Da tua Pequenina

Maria disse...

Pequenina
Das fadistas que falaste, gosto muito da Ana Moura.
Estou triste, porque o meu cão está velhinho e doente. Espero que não me pregue a partida.
Quanto à "Defesa do Poeta" da Natália, é um dos que está agendado.
Também gosto muito desse poema.
Vou ouvir o cochicho, sim. Talvez me anime a mim e ao canito, que gosta de ouvir música.
obrigada e beijinhos da
Maria

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariamiga

Como sabes, foi o Pai Ferreira que cortou cerce uma carreira de fadista que se antevia fabulosa. Mas o meu santo progenitor disse-me que me deixasse de cantorias e fosse a outras vidas.

Mandava quem podia... Logo, o Carlos Ramos (com quem cantei por diversas vezes na sua Toca) disse-me baibai e prontos (sem s). Não houve mais fado pra ninguém, digo, pra mim

Perdeu-se um fadista, mas ficou o doido pelo fado. Até hoje. Desde o patriarca Carlos do Carmo até à Marisa é um vê-se-te-avias, nos dias que vão correndo. Mas, do Camané não gosto. É sempre a mesma coisa...

Da Amália - não falo. Foi, é única. Respeito. Silêncio que se vai cantar o fado. Conheci-a bastante bem e vê lá, quanto ao David, de quem também fui amigo, até namorei com a Pilar, que haveria de ser a segunda mulher dele. Pilar - sem Rio. E que tinha um Renault Dauphine amarelo claro, claro, quem nem te digo nem te conto.

3abçs e qjs de Torre de Moncorvo para tu.

Corvo disse...

Enquadramento perfeito (tirando uma pequena fífia), pela letra que encaixa bem na música e alguém que tinha jeito para a cantar, levando os ouvintes a sentirem a poesia. O piano também soa bem.

Beijinhos, e continua com estes posts que têm sido surpreendentes!

Vasco

Laura disse...

Maria, de pequenina colocava as mãos no rádio do pai, um rádio lindo do qual recordo a saudade de o pai cantar para mim, e de pequenina comecei a sentir as vozes nas minhas mãos, e entrava-me pela alma, hoje escrevo fados, canções e sou vidrada e quando me soa bem, procuro a letra...Ainda cheguei a ver a Amália no Casino do Sun City, tinha o Nuno uns 4 anitos... já estava mais acabada..

Um beijinho e obrigada pela letra, serviu.

da flor de linho.

laura

Maria disse...

Henriquamigo
Ainda não perdi a esperança de te ouvir cantar o fado. Fadista é sempre fadista. Gostava muito do Carlos Ramos.
O David é só, um dos meus poetas preferidos. Quando for crescida, gostava de ser como ele.
Tenho o canito doente e, não prevejo nada de bom.
Abraços dos homens, beijnhos para a Raquel e queijinhos de Tomar, que são bons para a dieta.
Maria

Maria disse...

Meu Corvo
Aquilo era um ensaio. Deve ter sido a primeira vez que cantou aquele fado.
Tem a particularidade de ser acompanhada ao piano pelo autor da música, Alain Oulman, nascido em Portugal, filho de franceses de origem judaica. Revolucionou o fado, musicando poemas de grandes escritores. Foi preso e deportado pela Pide e morreu em França.
Há mais alguns na forja. Deu-me na pinha, mostrar alguns dos meus poetas e poesias preferidos.
Ainda faltam alguns. O último, vai ser... Não digo! Se quiseres, adivinha mas, não digas.
Beijinhos
Mãe

Maria disse...

Flor de linho
Foi um pouco pensando em ti que, mandei o poema por escrito.
Sei que ouves a música mas, a letra é um pouco mais difícil.
Quando mandar os poemas musicados, ponho a letra por baixo.
Perdoa só hoje me ter lembrado disso.
Sabes? o meu cão está muito velhinho e doente. Não sei, se não terei de tomar uma resolução que, me vai doer muito.
Beijinhos
Maria

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Mariamiga

Deixa-me que cite afirmações de umas quantas pessoas ditas personalidades. Naturalmente que me socorro da inultrapassável Wikipédia, porque a escassa massa cinzenta que ainda penso ter já não evidencia a memória de antigamente. Sempre serão 70 no dia 20 do mês que vem…

Quanto mais conheço os homens, mais gosto dos cães. Madame de Stael

Não há melhor psiquiatra no Mundo como um cãozinho lambendo a sua face. Ben Williams

Um cão tem a alma de um filósofo. Platão

(…) Aqui, senhores, um cão ensina-nos uma lição de humanidade. Napoleão Bonaparte

Se não tem um cão – pelo menos um – não há nada necessariamente errado em si, mas pode haver algo errado na sua vida. Vincent Van Gogh

Se apanhar um cão faminto e lhe der de comer, ele não o morderá. Essa é a principal diferença entre um cão e um homem. Mark Twain

O maior prazer de um cão é ver você fazer de palhaço brincando com ele. Ele não só não o repreenderá, como fará papel de papel de palhaço também. Samuel Buttler


Uns mais conhecidos do que outros, os autores citados (uma vez mais, valha-me a bendita enciclopédia) mostram – se necessário fosse – o que é um cão a quem dedicamos amor. Por isso compreendo bem as tuas preocupações pelo teu cão velhote. Mas, minha querida, a vida continua.

3abçs & qjs (de qualquer origem) para tu

Maria disse...

Henriquamigoooo...
O Nabão ficou no hospital, espero que só até às 18, para levar soro. Não fomos capazes de vir logo para casa.
Agora, estou aqui a fazer horas para o ir buscar espero.
Custou-me horrores entrar em casa e, não o ver. Ele ficou a olhar para mim, com aqueles olhos que falam. Parecia perguntar: Porque me deixas aqui? Fiz-lhe festinhas e disse-lhe: a dona já vem buscar-te. Ficou calmo.
Tudo o que disseste, é verdade. Trouxe-o pequenino, dei-lhe biberão, dei-lhe todo o amor que sei dar.
Só que não quero que sofra. Já disse ao veterinário que, se tiver que sofrer, não quero. Gosto tanto dele que prefiro perdê-lo. É a última prova de carinho que lhe dou.
Os donos, João e Vasco, são os dois da minha opinião.
Ainda tenho uma pequenina esperança.
Obrigada, meu querido amigo, pelas tuas palavras. Deram-me alento para aguentar, seja o que for.
Abraços dos homens, beijinho para a Raquel e, um abraço grande da Maria

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Que letra tão linda, não conhecia.
Que venha mais Amália, Maria.
Penso no quanto minha mãe iria
apreciar, estar agora a ouvir, essas preciosidades.
Estou gostando de ver, você mais "presente", para os amigos...aqui!
Beijinhos
Lúcia

Maria disse...

Lucinha amiga
Os poemas de David Mourão Ferreira são sempre maravilhosos. Há diversos livros dele, não só de poesia, como romances. Já os li todos e, continuo a relê-los sempre com gosto.
A nossa eterna fadista, felizmente, tem vasta obra gravada. Não vai morrer, enquanto a sua alma e a sua voz, se ouvirem em todo o lado.
Ninguém a pode igualar.
Obrigada amiga e beijinhos da
Maria

Laura disse...

Obrigada Maria, muito obrigada pelas letras que envias pelo email.

O teu ão ão se sofre nem é preciso pensar duas vezes, se está apenas velhinho, lá chegará o dia.

Um beijinho.

laura

Laura disse...

E mais uma vez, ouvi e acompanhei com a tua letra, e que feliz me senti...

Um apertadinho abraço.

laura

Carlos Ramos disse...

Também conhecido, como Fado Peniche (a minha terra por sinal), é muito grande a Amália, depois serviu e serviu-se dos melhores poetas. O resultado foi o que sabemos. Parabens por este espaço.

Abraço

Maria disse...

Amigo Carlos Ramos
Foi na casa do outro Carlos Ramos que ouvi fado ao vivo pela primeira vez.
Sim: Este fado também é conhecido por
"Fado de Peniche". Já gostava muito dele mas, foi a primeira vez que visitei o Forte, que percebi a enorme dimensão do poema. Nesse dia, consegui ouvir o vento, ver o mar e imaginar os gritos dos presos.
Quero lá voltar. É um local incontornável, das lutas antifascistas.
Volte quando quiser.
Gostei do seu Blogue, adoro pássaros.
Obrigada pelo seu comentário
Maria