domingo, 1 de fevereiro de 2009

Temporal

A noite de sábado para domingo foi um autêntico pesadelo. Vento que fazia toda a casta de ruídos, atirava coisas ao chão, derrubava árvores, destruía. Chuva que caía sem cessar, em cordas de água que transformavam ruas em rios. Trovoada que metia medo, me fazia dores de cabeça. E eu aqui, quentinha, abrigada, seca, ouvindo a Maria João Pires tocar Chopin, como só ela sabe, quase esquecida da fúria da natureza, quase esquecida do mundo lá fora. Depois veio a realidade de um barulho diferente, um ruído de água a cair mais perto, um burburinho estranho na escada.
Já nos tínhamos deitado, o Nabão estava calado e a dormir, quando o barulho nos sobressaltou. Fomos ver, convencidos que a clarabóia tinha voado, ou algum vidro partido. Nada disso. Um cano tinha rebentado, dois andares abaixo, a água corria e esguichava por todo o lado. Chamados os responsáveis, vedado o cano, pelo dono do andar e o meu marido, que todos encharcados, se revezavam na tentativa de tapar aquela fonte, esperámos os bombeiros e o piquete. Este, que tinha sido o primeiro a ser alertado, foi o último a chegar. Os bombeiros fecharam a torneira do prédio, limparam-se as escadas. Entramos em casa, ele gelado e encharcado até aos ossos, eu cheia de frio e trémula de susto. Deitei-me na cama quente e em vez de dormir, pus-me a pensar naqueles cuja noite iria continuar à chuva, ao vento, encharcados, com fome, sem um teto, uma sopa quente, a companhia de alguém.
Senti-me tão egoísta! Tinha um abrigo, uma cama quente, a companhia do meu companheiro, o meu Nabão aos pés e estava infeliz! Levei muito tempo a adormecer e dormi mal, cheia de culpas e remorsos do meu egoísmo.
O mau tempo continua. E eles continuam lá fora. E continuam a povoar-me a cabeça de imagens tristes, injustas, feias. E continuo a sentir a impotência horrível, para resolver ao menos um só, destes problemas.
Quem são os responsáveis? A quem pedir contas? Será que vai ser sempre assim? Uns com tudo, outros sem nada, nem um teto, uma cama, uma malga de sopa...
É injusto. A vida é injusta. Nós que temos um certo conforto, somos injustos, porque às vezes nos queixamos de não ter coisas, que não nos fazem falta.
Estou triste, revoltada. Só queria saber com quem.
Até um dia destes.

6 comentários:

Kim disse...

Quando ouvi falar do Nabão, lembrei-me logo de ti.
Este tema é sempre um pau de dois gumes.
O temporal é uma coisa que me assusta muito. Não consigo estar no quentinho sem me lembrar dos que não estão.
Acontece a todos e os sem-abrigo sofrem no corpo, todos os dias, outro tipo de intempérie.
Beijinho Marie!

Anónimo disse...

Querida Maria,
Eu estava na rua quando o temporal começou. Faço quase sempre o contrário do que manda o bom senso.
Também eu, apesar de tentar ver sempre o melhor lado da vida, vivo angustiada com o sofrimento dos sem-abrigo, dos idosos que vivem na solidão, das crianças que cresceram na guerra...
O pior é que um dia senti que: "Quando eu partir, serei 'julgada' não pelo que fiz, mas por tudo aquilo não fiz e poderia ter feito".
Não sei lidar muito bem com este conflito interno, mas Deus, o Cosmos, a Natureza, se encarregarão de me ajudar a compreender... Espero!
Perdoa-me o desabafo. Hoje não me sinto no meu melhor.
Um beijo de saudades
Nemy

Anónimo disse...

Kim:
Parece que desta vez o Nabão não se portou mal, até agora, mas se o tempo continua assim, é capaz de inundar o centro histórico todo. É por isso que o comércio está todo a fugir para a parte nova. Até as velhas farmácias, minhas conhecidas, onde muitas vezes me trataram cabeça partida, os joelhos esmurrados, o sangue que me saltava do nariz com uma frequência assustadora. Os tomarenses estão habituados às fúrias do seu rio. Estou preocupada é com as duas lontras que moravam na Levada. Para onde terão fugido?
Quanto aos sem abrigo, é uma das coisas que mais me aflige, quando o tempo está mau.
Quase sinto remorsos de me sentir seca, abrigada, quente. Como é que algum ser Humano pode resistir ao frio, à chuva, à fome?
E são tantos! E há tanta casa desabitada!
E a solidão? Quem lhes acode quando estão doentes? Quem os ajuda?
Dizem que Deus não dorme, mas acho que às vezes, se distrai.
Beijo
Maria

Pico minha ilha disse...

Omau tempo por aqui também está presente, tenho medo do muito vento.Ao deitar sempre penso naqueles que são sacudidos pelas rajadas e ficam de casas alagadas sem um canto para viverem.Beijinho Maria e até um dia.
ps: li seus postes e encontrei a montanha, a minha e sua, pelo que li fiquei a pensar que ainda tem família aqui.

Anónimo disse...

Querida Nemy:
Que podemos nós fazer?
Dizem que alguns não querem ir para as tendas. Há aqui, perto da casa onde viveu o meu pai, dois velhos, que já tentaram levar e recusam-se a ir. Há anos, que vivem(?) entre um muro e os contentores do lixo, acompanhados de dois cães e um monte de sacos, caixas de papelão, etc. Quando a chuva é muita, vão dormir debaixo de umas varandas, onde continuam a apanhar chuva, frio, vento. Comem o que os contentores do lixo lhes dão. Já vi, tentarem levá-los e eles negarem-se, insultando, agredindo e açulando os cães. Metem medo. Sujos, as pulgas vêm-se à vista desarmada, mas não vão.
Debaixo dos arcos da minha casa, já viveu uma mulher, que depois de correrem com ela, foi abrigar-se numa gruta da Calçada de Carriche. Dias depois, morreu atropelada. Embora nada tenha feito para a mandar embora, fiquei sempre a pensar nisso. A explicação que eles dão, é que não estão para não irem, é que os obrigam a levantar às 8 da manhã e a tomar banho.
Que se passará nestas pobres cabeças?
Dizem que não os podem levar à força, mas aqui eu deixo de ser democrata: iam a bem ou mal.
Também não estou nos meus dias.
A minha avó dizia que "Se a Senhora das Candeias rir, está o inverno para vir, se ela chora, está o inverno fora". Ora, hoje é dia da dita Senhora e está um pouco de sol. Vamos ter mais chuva.
Saudades e beijinhos
Maria

Anónimo disse...

Pico Minha ilha:
Quando foi o grande abalo, eu estava aí. Se já tinha admiração por essa boa gente, nesse dia o meu respeito redobrou. Dez minutos depois do abalo grande, nas Bandeiras, toda a gente se reuniu à porta do sogro da minha irmã, o mais velhinho do sítio. às 7 da manhã, já andavam as máquinas a limpar os destroços, e toda a gente se ajudava. Uma solidariedade linda, a que eu já não estava habituada.
Apesar do susto, foi uma lição que nunca vou esquecer.
Nos Espalhafatos, toda a gente se ajudou e não faltou abrigo nem comida a ninguém.
Sim, ainda tenho aí família.
Um dia direi quem.
Beijinhos
Maria