sábado, 7 de fevereiro de 2009

Varina da Madragoa


Conheci a Madragoa há largos anos. Encantou-me aquele labirinto de ruas, travessas, vielas, velhos e enormes conventos e palácios, a que se encostavam casas pequeninas e humildes. Encantou-me o vaivém das pessoas que passavam, trocando cumprimentos, até com quem não conheciam. E as varinas, de saias rodadas, aventais, chinelas, lenços a descair numa graça que parecia estudada. E os nomes das ruas (das Madres, das Isabéis, das Inglesinhas, das Trinas. E os gatos, a roupa a secar, as conversas de janela para janela. O cheiro do Tejo, ali tão perto. Achei-lhe um ar de Aldeia bonitinha.
Sei pouco da Madragoa. Sei que o nome lhe vem das “Madres de Goa”, (daí, Rua das Madres); sei que a “Travessa das Isabéis” assim se chama devido a um Convento fundado por Santa Isabel da Hungria, sendo as freiras chamadas de “Isabéis”. Para saberem mais sobre o bairro, consultem os olissipografos: Pastor de Macedo, Matos Sequeira, Norberto de Araújo, Leitão de Barros, Marina Tavares Dias, Appio SottoMayor, etc. Eu só sei falar da minha Madragoa. Está diferente. Ruas desertas, sujas, com mais cheiro de xixi de gato, do que gatos, sem o barulho das chinelas e dos pregões das varinas, mas ainda bonita, ainda com pessoas que passam e dizem: “Boa tarde”, ainda com o Tejo ali ao pé. Ah! E a “Varina da Madragoa”, igual ao que sempre conheci. Restaurante de bairro, não muito grande, sem grandes letreiros. Não precisa. Quem lá vai, sabe onde é. Do tamanho que eu gosto: nem grande nem pequeno, forrado a azulejos (azuis, à moda antiga), nas paredes há recortes de jornais, que falam dela, poemas, lembranças da antigos e actuais clientes da casa.
Por lá passaram escritores, jornalistas, aspirantes a ambas as coisas. Não tem luxos de mobiliário ou de comida, mas é tudo honesto, limpo, saboroso. Não tem um batalhão de empregados a atender, tem um senhor simpático, amável, sem subserviência. Apetece ficar a conversar depois de concluída a refeição, pois ninguém nos olha, como que a perguntar, porque é que ainda lá estamos. É bom olhar os artigos dos jornais e pensar que estamos no mesmo sítio em que quem os escreveu esteve e onde alguns ainda voltarão.
Como vêm ainda há uma “Varina na Madragoa”. Vão lá e vejam.
O peixe é bom, os diversos bacalhaus são óptimos, a açorda de gambas, posso garanti-la, porque foi o que comi, desta vez.
Parece que fecha aos Sábados ao almoço e às segundas.
Até um dia destes.

18 comentários:

Kim disse...

Gosto deste género de restaurante.
Já gravei nos favoritos da memória a Varina da Madragoa.
O que me lembro bem é que não podia passar na Rua do Benformoso sem quase ser obrigado a comprar um par de sapatos.
Hoje o tipo de compra é outro.
Beijinhos Marie!

Anónimo disse...

Kim:
Gosto da Madragoa, gosto da "Varina" e d outros do mesmo género.
Estive toda a tarde a ler "A Catedral". Vou continuar e penso que só paro quando acabar.
Que história linda! Pena ter um fim tão triste. De qualquer modo é uma grande lição de força, de dignidade, de fé. Devia ser lido por toda a gente.
Beijo.
Maria

martim disse...

Um beijinho muito grande, Tia Maria.
Gostei de ler sobre a minha terra!
Outro beijinho e um domingo muito bom, para ti.

MARTIM

Anónimo disse...

Martim:
A tua terra é linda. Tenta conhecê-la bem.
Quando tinha a tua idade, conheci monumentos, igrejas e miradouros, desta Lisboa tão linda e tão mal amada.
Fiquei apaixonada por ela até hoje. Tanto, que fiz um negócio com o meu irmão, que nasceu cá. Eu dava-lhe um pouquinho de Tomar, a minha terra, que ele adora, ele dava-me um bocadinho de Lisboa. Assim, ficamos os dois com duas terras: Lisboa e Tomar.
Beijinhos para a mãe e os manos e um bem grande para ti.
Tia Maria

Anónimo disse...

Caríssima Senhora, desculpe dirigir-me a si desta maneira, mas não sei de outra forma. Era apenas para a informar, que com a devída vénia trancrevi um escrito seu, sobre o Francisco Stoffel, que achei de uma beleza espiritual que me comoveu, e fiz já dois vídeos dele, até para os novos de agora saberem como se cantava o fado na voz desse jovem que nos deixou tão cedo. Mando o link do vídeo e espero que não se zangue pelo abuso. Peço que aceite os meus respeitos e creia-me com sinceridade. Américohttp://www.youtube.com/watch?v=75rg3nbJgAU&feature=channel_page

Anónimo disse...

Caro Américo:
Além de não ter ficado zangada, fiquei orgulhosa.
Já vi os videos e gostei. Não conhecia a sua página, mas vou ficar visitante.
Gostei de o ouvir cantar. Gosto de fado e gostei do seu cuidado em me dizer o que tinha feito. Nem todos o fazem, como sabe.
Cumprimentos
Maria

Alfredo M B Caiano Silvestre disse...

Olá, Maria.

Completamente "out of topic" mas dando resposta à sua nota.

Sim. Sou mesmo eu e é mesmo o Carlos Carvalheiro do "Fatias de Cá", aliás eu "sou" também do Fatias. O "Tomar Cultural" era uma revista de suporte às actividades de uma Comissão Cultural que trabalhava então na SBRMNabantina.

Dessas actividades nasceram quer o "Fatias de Cá" quer o Coro Canto Firme.

O fim do "Tomar Cultural"?
Uma inglória falta de fundos.

Alfredo M B Caiano Silvestre disse...

Outra nota.

Fui verificar e aqui no meu baú estão depositados os três únicos números que foram impressos.

Alfredo M B Caiano Silvestre disse...

Ainda outra nota.

A publicação das histórias não carece, de modo algum, da minha autorização, embora agradeça a gentileza da sua solicitação.

Alfredo M B Caiano Silvestre disse...

E como vê o "bichinho" da escrita anda há algum tempo comigo.

Cinco (ou sete) blogues, dois jornais, uma revista(zita) e o mais que ainda virá.

Anónimo disse...

Caro Alfredo:
Obrigada pela sua rápida e simpática resposta.
Já vi o "Fatias de Cá", no "Sonho de uma noite de Verão" e adorei. Só não os vejo mais, porque nem sempre calha quando aì vou, haver espectaculo, mas sigo-os com interesse. Aliás, tudo o que diz respeito à minha Tomar me interessa.
Sigo os blogs que vou encontrando e assino o "Templário".
Ando louca de saudades da minha terra mas, o tempo e alguns problemas de saúde, não me têm deixado lá ir.
No entanto, mesmo quando falo de outras coisas, é sempre com Tomar e o Nabão no pensamento. Até o meu canito tem o nome do nosso rio. Assim, posso dizer-lhe o nome vezes sem conta.
Mais uma vez obrigada e até um dia destes.
Maria

Alfredo M B Caiano Silvestre disse...

De nada, cara Maria, absolutamente de nada.

Foi um prazer e creia que estou sempre à disposição de quem ama Tomar e à sua disposição em particular.

Anónimo disse...

Olá Dª Maria, obrigado por suas palavras e fico feliz por ter gostado. Eu também passarei por aqui sempre pois seu blog é muito sugestivo e maravilhoso. Muito obrigado. Américo

Anónimo disse...

Américo:
Primeiro que nada, deixe-se de cerimónias. O meu nome é Maria, sem dona.
Segundo: obrigadapelas suas simpáticas palavras.
Venha quando quizer, pois isto é um espaço abarto a todos.
Atéum dia destes.
Maria

Anónimo disse...

Boa! Assim é como eu gosto. Gente sem rodeios e de frente levantada.Estive a ler sobre Apúlia, e reconheci tudo o que fala, vivo um pouco mais acima, Gondarém - Vila Nova de Cerveira,tenho o Restaurante Residencial Kalunga, ponto de encontro e de saudade, e gostei que tivesse palavras bonitas para esta parte do Minho.Um abraço Américo

Anónimo disse...

Américo:
Deixei-lhe no post do Chico um recado.
Diga-me se ainda há restos da Apúlia que eu conheci.
Conheço (conheci) bem Vila Nova de Cerveira.
Quem sabe um dia nos encontraremos por aì.
Um abraço
Maria

Anónimo disse...

Pois será um prazer, encontrarmo-nos por Vila Nova de Cerveira. Quanto à Apúlia, vejo que em cima vários com mais conhecimentos que eu, que é praticamemnte de pasagem, lhe informaram. Mas tem mudado um pouco, aliás como tudo por aqui, melhoramntos é certo, mas também se tem perdido muita da beleza rústica destes povos e destas terras. Um abraço . Américo

A2arquitectos disse...

Há alguns anos que conheço este restaurante que sempre prezou pela simpatia da casa e pela excelente comida e por isso decidi este ano fazer o meu jantar de aniversário.
A maior desilusão...
Desde o vinho da casa ser pior que uma tasca na Amadora, às doses minimas e insuficientes todos, incluindo cogumelos quase crus e faltando os vegetais a acompanhar (Acordados no menu) até ao preço ter sido aumentado 1 euro por pessoa por terem vindo 2 doses a mais. Note-se que o menu seria à descrição.
Rematou com a falta de educação do novo gerente em não reconehcer o erro da casa e não defendendo o seu funcionário que estava aflito a atender às reclamações. Apenas recebeu o dinheiro e calou-se.
Queremos os nossos restaurantes tradicionais entregues a profissionais.
Que tristeza!