domingo, 2 de novembro de 2008

Elegia


Quando nasci, havia em cima da cómoda do quarto dos meus Pais, uma moldura oval, com pequeninas rosas ouro velho. Dentro, um rostinho de bebé, muito pequenino.
Assim que comecei a andar, a minha Mãe dizia: “Não mexe no retrato da menina”.
Eu não mexia, mas olhava. Olhava a menina, a jarra com uma flor branca, os olhos de minha Mãe, que se enchiam de lágrimas, quando o fitava. Ficava triste, mas nada perguntava. Quando íamos a Ovar, a Mãe comprava um pequenino ramo de rosas brancas e, dirigia-se a um sítio que, eu achava bonito. Tinha casinhas, canteiros com flores, velinhas. Então, ela abria uma das casinhas. Lá dentro, havia prateleiras com grandes caixas negras, cobertas de belas colchas de Damasco. Uma, porém, era diferente. Pequenina, coberta de seda e tule brancos. Em cima uma jarrinha. A Mãe, chorava, sacudia as colchas da caixinha, limpava-a com cuidado, arrumava tudo, punha água e as flores na jarra, sempre a chorar, fechava a porta e, íamos embora. Eu perguntava: “Mãe, o que é isto? Porque estás a chorar?”. E a resposta era sempre a mesma: “É a menina, filha, é a menina”.
Um dia, mais crescida, soube tudo. Entre o meu irmão e eu, houvera a “menina”.
A menina do retrato, a menina da caixa, a menina das flores brancas, a menina que fazia minha Mãe chorar, era a minha irmãzinha morta, quatro meses antes de eu nascer. Nascera em Tomar, na mesma casa, no mesmo quarto, na mesma cama que eu. Morrera em Ovar.
A partir daí, passou-se qualquer coisa na minha cabeça. Por um lado, a pena de não a ter conhecido. Por outro, um medo horrível, de a minha Mãe, gostar mais dela e, preferir que, fosse eu a morta. Chegava a sonhar com ela. Diziam que, nós éramos parecidas. Eu via-me no caixão. Durante anos sofri esta tortura. O amor dos meus Pais, mostrou-me que, uma coisa nada tinha a ver com outra. Mas, acho que só acreditei, quando tive os meus filhos e vi, que nenhum filho é mais amado do que outro. E, sobretudo, nenhum ocupa o lugar de outro.
Teve uma estreia triste, a minha casa nova. Hoje é “Dia de Fiéis Defuntos”. Já tenho muitos na minha alma, mas a primeira, foi aquela “menina”, que eu não sabia quem era, nem que estava morta.
Amanhã será um dia melhor.
Até um dia destes.

4 comentários:

Kim disse...

Sabes Maria, quando eu tinha 18 anos parti à descoberta do mundo, sem dinheiro s sem mala de cartão. Por lá andei até aos 21 anos. Como deves calcular, as minhas aventuras ficaram marcadas pelas vicissitudes que a minha condição de errante implicava.
Descobri nessa altura que os meus dias mais felizes eram aqueles em que a tristeza me consumia. Claro que é uma situação muito estranha, sabendo aqueles que me conhecem que eu sou uma pessoa bastante alegre e divertida, mas assim era.
Nessa altura eu pensava sempre positivamente, mesmo quando passava dias sem comer. Dizia para mim "não te preocupes porque não vais morrer e amanhã será outro dia". E assim foi! E assim continuou a ser pelo resto da minha vida. Depois ... bem depois, quando a minha mãe morreu (em 2001)passei a sentir o fim mais próximo e a dar mais importância às pequenas coisas da vida. Vi-a morrer com falta de ar. Um carcinoma da mama estendeu-se aos pulmões e os seus últimos dias não são para recordar.
A primeira lição que a sua morte me deu foi logo a de que nunca mais fumei. Não que isso me faça viver mais anos, mas que me dará mais qualidade de vida, disso não me resta qualquer dúvida.
Hoje, sem esquecer que o meu dia chegará, tento retirar de todos os infortúnios as ilações que os mesmos concernem. Nem sempre me convecem mas ajudam-me a ver o lado positivo das coisas.
Já pensaste que a morte pode ser o maior desejo e a maior alegria de alguém? Para isso basta que um corpo macerado e inútil se aninhe num qualquer leito de sofrimento, onde houver a certeza de vindouros radiantes dias não mais voltarem.
Alegra-te Maria, que a morte não é mais que o último estado da vida.
Um beijinho petite Marie!

Anónimo disse...

Kim, amigo:

Mais uma vez me entendeste, mais uma vez me ajudaste.
Apesar de a minha “inimiga de estimação”, M. R. Pinto dizer que não há coincidências, a verdade é que há. Perdi a minha mãe com a mesma doença que, tu perdeste a tua. Vi-a sofrer tanto, que desejei vê-la morta, para não a ver sofrer mais.
Anos depois, foi o meu sogro. Outro calvário. Por fim, em 2001, a minha sogra e o meu pai, com dois meses de diferença.
Mais duas mortes horríveis, cheias de sofrimento. Não foram os únicos. Já perdi muitos seres que amo, pela vida fora.
Para mim, a morte é o fim natural da vida. Não me causa revolta, mas desgosto. O que eu não entendo é o sofrimento longo, inútil. As pessoas acabam por perder tudo, até a dignidade.
Tive uma avó, que adorei. Inteligente, culta, dona do seu nariz, com uns olhos verdes que, me varavam a alma até ao fundo.
Conhecia-me como ninguém. Viveu até aos 98 anos, depois de uma fractura do colo do fémur, que curou. Teve 2 pneumonias e, resistiu. Depois dos 90, criou uma bisneta. Era lúcida, como nunca vi ninguém. Um dia, caiu à cama com uma gripe.
Hospital, nem pensar. Quando piorou, ia um enfermeiro a casa, pôr-lhe o oxigénio e o soro. Numa tarde de Fevereiro, assim que o senhor saiu, ela arrancou a máscara e a agulha do soro e, só disse: “Não quero mais. Acabou”. Ninguém disse nada. A vontade dela, como sempre, foi soberana. Uma hora depois, foi-se embora. Eu adorava-a, como já disse. Mas a sua morte, não só não me revoltou, como me fez sentir orgulho, um orgulho imenso, por aquela mulher que, aos 98 anos, sabia quando era a sua hora de partir.
Desculpa, Kim. Habituaste-me mal. Aprendi a confiar em ti e, desabafar contigo, certa que me entendes.
Eu sei, que sou imprevisível. Passo da felicidade completa, para uma tristeza profunda, sem razão aparente.
A morte, a minha, não me mete medo. A dos que amo, sim, mete-me medo. Tal como o sofrimento.
Amanhã, já tudo terá passado.
Obrigada, mais uma vez pela ajuda.
Um beijo
Maria

carla mar disse...

Como eu entendo, as tuas saudades, minha querida Maria...

Em silêncio... abraço-te, com carinho.

Anónimo disse...

Querida Carla:
Um abraço dado com carinho, em silêncio, às vezes é mais reconfortante do que um enorme discurso.
Devolvo-to da mesma forma, sem palavras.
Maria